O hipopótamo saudável

Como um pão de queijo de ontem, esquecido na sacola da padaria, Osvaldo se sentia velho, murcho e sem esperanças. Havia descoberto dois dias atrás que estava sendo traído por sua esposa e que todos os seus amigos e familiares já desconfiavam do caso, no entanto, preferiram não meter a colher na vida alheia e nada disseram.

O relacionamento extraconjugal já completava meia dúzia de meses e tinha como personagens sua esposa Olga – 40 anos recém-completados e dominada pela ideia de que não havia aproveitado sua vida como devia – e, o pior, seu amigo Genésio – agora ex-amigo -, companheiro de infância que atualmente ostentava uma barriga digna de um hipopótamo saudável.

“Eu não merecia isso… Um revólver resolveria meu problema”, pensou Osvaldo. Passara os dois últimos dias, vagando pelas ruas de um bairro que gostava quando era criança e havia estabelecido residência na mesa de um bar amigável de esquina. Ainda não tinha certeza como um revólver resolveria seu sofrimento, mas lutava contra fantasmas que o chamavam de burro, corno e inútil. Burro, talvez. Corno, com certeza. Inútil, nem tanto, concluía Osvaldo.

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Ilustração: Jean Jullien

Pai de três filhos, Osvaldo era representante de vendas e costumava trabalhar viajando. Dois dias atrás, quando pegara Olga e Genésio estudando anatomia no mesmo sofá onde pedira sua esposa em casamento 20 anos atrás, Osvaldo ligara para a empresa avisando que se ausentaria por alguns dias por motivo de saúde. Desde então morava no bar e, entre um copo e outro, pensava como reconquistaria sua honra.

Em conversa com um cachorro de rua que se tornara seu mais novo amigo, chegou à conclusão definitiva: voltaria para casa, levaria o Costela – o cachorro – para morar com ele, expulsaria aos pontapés a esposa, abraçaria os filhos e teria uma conversa de homem pra homem com aquele hipopótamo traidor.

Tomou mais dois copos de cerveja, mandou pendurar a conta, contou seu plano para o dono do bar e disse que voltaria para comemorar sua volta por cima.

Desde que saiu daquele bar, em companhia do seu novo amigo, nunca mais foi visto. No entanto, a promessa de que se vingaria dos traidores ficou conhecida por todos na cidade.

Amigos e familiares acreditam que tenha apenas mudado de cidade, sumido por vontade própria ou morrido de desgosto.

Porém, Olga e Genésio sabem bem que ele está vivo. Afinal, Osvaldo faz questão de mandar um cartão de natal assinado ao casal todos os anos, que vive com medo, dando sobressaltos a cada barulho que indique a volta do corno vingador.

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