Os bons são quase sempre dissimulados. Os maus não temem ser quem são.
O mundo está cheio de más intenções, que são as intenções mais populares. E a ignorância, infelizmente, pode nos encantar e nos levar a explorar os seus limites mais longínquos. Afinal, o limite da burrice parece ser sempre mais surpreendente do que supomos.
É mais ou menos por aí que encontramos a prerrogativa de “O século dos imbecis”, romance mais recente do escritor português Valter Hugo Mãe, lançado no início do segundo semestre de 2026, em uma belíssima edição da Biblioteca Azul.
Valter Hugo Lemos nasceu em 25 de setembro de 1971 e é autor de vários livros de poesia, contos, romances e literatura infantil, sendo um dos mais importantes nomes da literatura portuguesa nas últimas décadas. Já li alguns livros dele e um ou dois estão entre os meus livros favoritos da vida. No fim do texto deixo as indicações.

A história aqui se passa entre as montanhas de Portugal e tem a Malandrinha, “palacete de granitos arrebicados” como um de seus protagonistas. A casa, parte castelo, parte mansão, e que parece possuir vida própria, é um elemento central do enredo. Uma casa antiga, “os vivos são sempre a minoria” (p.28). Afinal, “o que é uma casa senão um parente extraordinário” (p.21).
O Marquês da Malandrinha, Agilulfo, “último nobre de linhagem”, de pernas curtas e rosto de bolacha, “emburrecia ao descer e abrilhantava ao subir”. Dotado com essa rara e inédita qualidade, o nosso protagonista desfazia de corpo e mente ao descer em direção ao litoral, tornava-se indefeso, quase morto, mas crescia em lucidez e vigor ao subir as montanhas.
E isso, obviamente, se tornava uma grande atração para todos, que preferiam descer a subir.
“A felicidade estava tão disponível no espectáculo da burrice, que todos se aproveitavam daquele que fosse alheia tanto quanto podiam” (p.22).
É uma história um pouco maluca, com elementos fantásticos e reais que se misturam. Temos personagens muito ilustrativos e curiosos, como “A Criada”, “A Mulher Torta”, “A Pessivista” e “A Marquesa”.
“A Criada, algo corajosa e aterrada ao mesmo tempo, não pensou em nada. Apenas sentiu. Talvez devesse exercer mais vezes o privilégio de nem tudo ser inteligível. De nem tudo ser informado, consciente, definido, classificado” (p.286).
Como resultado do estilo do próprio autor, dá pra imaginar todo aquele contexto meio mágico e particular onde personagens distintos habitam.
Comecei a leitura sabendo apenas a premissa básica e recomendo que seja assim, já que todo o desenrolar da experiência pode surpreender. Valter Hugo consegue, na minha opinião, abordar, mais uma vez, temas sensíveis de uma forma poética e irônica, e trazer trechos belíssimos, naquele português próprio dele. Algo imarcescível.
O livro tem momentos excelentes, dentre os quais destaco a marcha comunitária até o ponto mais alto da montanha e o julgamento.

É uma narrativa que transita entre o individual e o coletivo com muita tranquilidade, e tem um tom de crítica política muito pertinente. As figuras políticas e mesmo as figuras populares da história são ícones do que estamos bastante habituados. O autor busca destacar o poder da imbecilidade e o fascínio que a ignorância pode gerar em nós.
Afinal, “que humanidade era aquela que preferia promover a ignorância ao contrário de promover a erudição e até o milagre” (p.219).
“Somos do século da informação, mas não somos do século da felicidade. Senhoras e senhores, não nos falta informação, falta-nos a felicidade” (p.238).
Se podemos caminhar em direção à luz, porque descemos em direção à escuridão? “Se todos poderiam convidar Agilulfo a subir, porque sempre haveriam de o convidar a descer”?
“Disseram-nos que vergámos a inteligência à folia. Eu não estou certo de sermos tão inteligentes que sequer o soubéssemos fazer. Quero dizer. Por intenção. Se isso foi assim, foi por deriva, um labirinto no qual nos metemos e de onde saímos num resultado inesperado, sem competência. A maioria das coisas da vida são da nossa incompetência. Eu confesso que esta foi a maior que já experimentei. Peço misericórdia e paz” (p.226).
Tem uma entrevista muito boa com o autor, que falou sobre o lançamento do livro e outros assuntos:
Para quem ainda não conhece Valter Hugo, sempre indico que inicie por O filho de mil homens (Biblioteca Azul, 2016) e a máquina de fazer espanhóis (Biblioteca Azul, 2016), livros excepcionais sobre os quais comentei aqui. Ou mesmo “Deus na escuridão”, sobre o qual falei por aqui também.
Por fim, selecionei outros trechos que me marcaram. Mas antes, uma frase pertinente de Millôr Fernandes: “Chegou ao limite da própria ignorância. Não obstante, prosseguiu”.
Um abraço!
“Todas as comunidades dependem largamente de seus pessimistas. Gente cujo feitio inquina as boas intenções e não se vê senão a óbvia derrocada das condutas humanas. Tudo quanto é humano degenera em algum momento” (p.65).
“Tudo o que é de Deus é sem nome. Todos os nomes que usam os homens e as mulheres são especulações, talvez até heresias, tentativas néscias de saber falar o que é Dele, falar com Ele. Mas o que é de Deus deixa o seu significado na humanidade e, sendo tão difícil de ser conversado, é explicado pelo que se sente. É um sentimento. Deus é um sentimento” (p.101).
“É o que mais quero quando receber a minha morte. Que me ajudem a não ter medo” (p.145).
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