Sobre querer mudar, de Adam Phillips

Se a mudança constitui tanto um objeto de desejo como um destino fundamental, onde isso nos coloca? – Adam Phillips

Ao discutir os nossos desejos de mudança, Adam Phillips menciona um chavão do tratamento psicanalítico que diz que o paciente chega à psicanálise para mudar permanecendo o mesmo. Intrigante, não é? Mudar permanecendo o mesmo.

O que significa para uma pessoa ser mudada e mudar a si mesma para melhor, e como isso se dá?

É a partir de perguntas como essa que o psicanalista e professor galês Adam Phillips desenvolve, em “Sobre querer mudar” (Ubu Editora, 2025), uma série de ensaios sobre os sentidos ambíguos da mudança.

Adam Phillips nasceu em 1954, em Cardiff, no País de Gales

O autor parte de explorações sobre a figura da “conversão” religiosa, política, terapêutica e pessoal, e investiga nossas narrativas de progresso, seja como gesto de liberdade, seja como forma de coerção.

O tema da mudança é muito caro pra mim. Sempre convivi, mentalmente, com ideais de desenvolvimento e evolução, como se estivesse numa espiral de crescimento que chegaria a algum lugar diferente. Um lugar de iluminação ou sabedoria. Um lugar melhor que o anterior.

Isso é curioso, já que remete ao conceito de “conversão”, discutido por Adam Phillips e envolve a ideia de que só buscamos nos converter ou mudar para “algo melhor”. Ninguém entra para um culto ou se converte para uma nova religião escolhendo piorar. A ideia é sempre estar adentrando uma nova perspectiva, ampla e melhor, ainda que nem sempre o desejo coincida com a realidade.

Portanto, eu, assim como muitos, imagino, sempre me vejo aspirando por mudanças.

Talvez seja por isso que frequento uma psicoterapia há tantos anos, ainda que, ocasionalmente, me questione sobre qual versão de mim, exatamente, estou buscando. E se isso não é, de certa forma, uma ilusão, já que nem sempre queremos saber tanto assim sobre nós mesmos.

Afinal, como apontou Phillips, “o que se pode fazer com o que se quer e, ao mesmo tempo, não se quer saber sobre si mesmo?” (p.44).

A aspiração por mudança está presente em quase tudo e sempre aponta para um alvo em particular. Trago exemplos: estou estudando pra me tornar uma pessoa que sabe mais, até o dia em que serei reconhecido como “quem sabe muito”; estou fazendo atividade físicas e cuidando da minha alimentação para chegar ao ponto em que estarei “pronto” (para o quê? Não sabemos); e, por fim, penso e repenso sobre mim na terapia até o dia que estarei integralmente terapeutizado.

Sobre a mudança, Adam Phillips diz:

Quando falamos sobre mudança, estamos falando sobre nossas normas preferidas, os padrões pelos quais queremos viver, aquilo que preferimos conceber como normal. Então não existe terapia que não seja normativa, nenhuma que não queira nos dizer como devemos viver e quem devemos ser (grifo meu) (e quais tipos de mudança devem ser preferidas). A questão é apenas quais dessas normas preferimos e por quê. Querer mudar diz respeito tanto ao nosso querer, e como o descrevemos, quanto às mudanças que queremos. Melhorar significa compreender o que queremos melhorar (p.9).

O meu “eu” de vinte anos atrás é “pior” que o meu “eu” atual? Sou uma pessoa melhor, hoje? Sou mais sábio, consciente, crítico, empático, justo? Serei melhor em cinco ou dez anos? Honestamente, não sei. O meu “eu” de amanhã pode abominar o meu “eu” de hoje, e isso não é algo sob o qual temos, particularmente, muito controle.

Quando paro pra pensar na vida (e faço isso com frequência), percebo que costumo organiza-la em roteiros ou caminhos pré determinados. Tipo um livro mesmo, um filme ou uma série com temporadas. É como se pudesse calcular, prever e constatar causas, consequências e resultados. Alguns desfechos são excelentes, outros trágicos. Mas é como se tudo dependesse, em boa parte, das minhas ações. E isso envolve aquela tal espiral de evolução a caminho de algo.

Phillips comenta que “quando preferimos pensar em nossas vidas como mitos de progresso, em que nos aperfeiçoamos cada vez mais na realização do nosso assim chamado potencial; ou, ao contrário, como mitos de degeneração–de decadência, luto e perda (o envelhecimento visto como a perda da juventude, e assim por diante) –, estamos também traçando um enredo para nossas vidas” (p.9).

Isso não é um problema por si só, mas o escritor complementa que “existem as histórias que contamos sobre a mudança e a forma como realmente mudamos, e nem sempre as duas coisas coincidem ou se combinam” (p.10).

Ou seja, que roteiro é esse que conto pra mim mesmo e que talvez não faça lá tanto sentido assim, uma vez confrontado com a realidade dos fatos? E que espécie de preparação-aquecimento é esse que acredito estar experimentando para, de fato, em breve, viver?

John Lennon já dizia, na belíssima Beautiful Boy (Darling Boy), de 1980, que “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos” (Life is what happens to you while you’re busy making other plans). Nada mais certeiro do que isso.

Ao discutir a diferença entre as experiências de “conversão” religiosa (geralmente revolucionárias e definitivas) e as experiências “tradicionais” de mudança, como, por exemplo, através de uma psicoterapia ou da tomada de decisões, Phillips pondera:

Aquilo que queremos de uma experiência de conversão – e o fato de que possamos querer uma experiência de conversão em vez das muitas outras formas de mudança disponíveis – deve servir de pista para o que acreditamos que nos falta, para as experiências que não estamos tendo nas experiências que estamos tendo. E para o que não suportamos na mudança (grifo meu): o fato de, por exemplo, ela ser sempre provisória e incerta; de representar um risco sem garantias; de apresentar consequências imprevisíveis; de tornar-nos vulneráveis demais, e assim por diante. A conversão é supostamente transformação com uma apólice de seguro (p.81).

Este livro de Phillips ajuda a entender, não só nossos mecanismos internos de mudança, mas alguns fenômenos contemporâneos que apontam para uma radicalização de perspectivas na sociedade e para a dificuldade, cada vez maior, na coexistência de opiniões divergentes.

Como descobrir que tipos de mudança poderíamos querer para nós mesmos? E como, se é que é possível, separar tais formas disponíveis de mudança daquelas que as outras pessoas querem nos empurrar goela abaixo?

Essa é a minha segunda leitura do autor. A primeira foi “Sobre desistir” (Ubu Editora, 2024), que considero um livro mais coeso e acessível que esse, ainda que ambos sejam voltados, principalmente, a pessoas que já possuem algum contato com discussões na área da psicanálise.

Falei sobre esse outro livro nesse texto: https://rodrigopadrini.substack.com/p/a-perda-do-que-poderia-ser-dito-feito

Temos uma edição? Temos. Um abraço!


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