O passado não deveria ser sempre tão acessível

Memórias digitais

Abro o e-mail. No campo de pesquisa, busco “reserva restaurante”, já sabendo que muitos registros vão surgir. Eu só preciso de um, pra indicar um lugar pra uma colega.

Quarenta e nove registros, menos do que imaginei. Brotam e-mails de dois mil e dezenove, dezesseis, quatorze e até dois mil e nove. Onde eu estava mesmo em dois mil e nove? (Como eu era magro)

Uma frase surge na minha cabeça: o passado não deveria ser sempre assim, tão acessível.

Se tem algo que mudou bastante nas últimas décadas foi o acesso ao passado. As fotos e os vídeos digitais, é claro, foram fundamentais pra isso, mas tê-los na palma da mão, isso sim é algo curioso.

“O passado sem tanta tecnologia era muito melhor”. Pelo menos é o que a nossa mente quer imaginar.

Não dá pra acusar ninguém de não estar presente no aqui e agora

Estudos1 indicam que a “nostalgia digital”, como é chamada, evoca uma mistura complexa de sentimentos, desde alegria, conforto e alívio emocional, até tristeza, arrependimento e sobrecarga afetiva.

Apesar de ser um meio sempre acessível de autorreflexão, isso não é necessariamente bom.

Não sei você, mas o e-mail mais antigo que ainda segue arquivado no endereço de e-mail pessoal que uso até hoje data de vinte e sete de dezembro de 2004. Já é maior de idade, tem carteira de motorista e está na faculdade. Isso é mais tempo do que o tempo de vida de muita gente. (Nessa época, eu ainda tinha colágeno)

É como achar uma carta antiga naquele baú que fica no sótão ou uma foto desgastada naquela caixinha onde todo um período de vida foi confinado por anos.

Fazendo esse exercício, descobri que eu me comunicava com algumas pessoas por e-mail em dois mil e cinco. Mandava notícias, dava bom dia e por aí vai. Eram tempos mais calmos. Saudade da minha época (olha a nostalgia aí).

De etimologia diversificada, nostalgia2 deriva do grego nóstos “ato de regressar, regresso” + algos “dor”; pelo francês nostalgie, com o mesmo sentido. Uma espécie de tristeza acompanhada por um desejo de voltar a algum momento idealizado ou lembrado com carinho.

No caso da nostalgia digital, temos algo exagerado ou construído pelas mídias e algoritmos, sem que a gente peça, necessariamente.

Um exemplo: abro o meu “Fotos” no celular e a categoria “Memórias” grita: “Neste dia”; “Viagens para São Paulo”; “Sabores de Belo Horizonte”. (olha como você era feliz e jovem?)

Ainda segundo o estudo anterior, essa “nostalgia digital” pode funcionar como um mecanismo de enfrentamento (coping), especialmente em períodos de transição ou incerteza, oferecendo suporte emocional e resiliência.

Se estou meio perdido na vida, ver fotos e vídeos antigos, assim como ler e-mails ou ver o início do meu feed na rede social podem me ajudar. Ou não?

Falsa nostalgia

Para outra pesquisa3, a “falsa nostalgia” pode ser chamada assim porque é manipulada.

Alguns elementos justificam isso:

  1. Partilhamos apenas momentos perfeitos, omitindo o contexto real e as dificuldades;
  2. Já não “lembramos” naturalmente; somos “lembrados” por algoritmos que escolhem o que devemos sentir com base no que gera mais engajamento.
  3. Temos um museu sempre disponível para admirar um passado que, geralmente, é romantizado.

Ora, o meu “Fotos” não me sugeriu a “Memória” intitulada “Roubos em São Paulo” ou “Desilusões Amorosas em Belo Horizonte”. Mas elas existiram e foram reais. Isso deve dizer algo.

O mesmo estudo conclui que essa experiência de estar constantemente exposto aos registros digitais pode contribuir com uma espécie de desalinhamento emocional, levando a uma desconexão entre quem somos (no aqui e no agora) e o que lembramos (ou, pelo menos, vemos, no mundo digital), além de intensificar a comparação (meu passado é melhor que o seu).

A série de quadrinhos do André Dahmer com o Algoritmo é maravilhosa

Eternizar momentos pode estar transformando a nossa memória em mais um produto a ser manipulado pelos algoritmos. Eu gostaria de não saber o que eu fiz no verão passado, mas parece que o Google sempre vai me lembrar. E nem vou começar a falar sobre a destruição da nossa capacidade de memorizar as coisas.

Ciclano através dos anos

A experiência digital traz um elemento ainda mais gritante, na minha opinião: a quase certa probabilidade de localizar ou ser localizado por pessoas do seu passado.

“Talvez você conheça” essa pessoa que estudou na sua sala da sétima série em mil novecentos e noventa e oito.

“Olha como está o fulano” que destruiu o seu coração em dois mil e cinco e hoje está com dois filhos lindos e uma família feliz (e você aqui, nessa vida merda).

Quem disse que eu quero rever alguém? – Corta para um idoso dizendo aos netos ao redor da lareira: na minha época, a gente só sabia de fulano ou ciclano quando era convidado pro velório ou se esbarrava na rua.

Saber da existência e, de certa forma, conviver digitalmente com pessoas aleatórias de uma vida distante deve produzir algum efeito sobre a nossa subjetividade, não tenho dúvidas.

É claro que não sou esse sujeito tão amargo. Pode ser legal encontrar algumas pessoas que você nunca encontraria de outra forma ou ser lembrado de coisas que você não se lembrava. Eu mesmo recebi uma belíssima crítica do meu livro outro dia de uma amiga da faculdade, de “mil anos atrás”. Existe, sim, o lado positivo desse desatino todo.

Contudo, por fim, ainda posso mencionar mais um aspecto da presença eterna do passado pessoal em nossas vidas. Velhos tuites, velhos posts, velhas opiniões.

eternização digital de tudo e de todos vem produzindo mudanças substanciais na nossa forma de pensar e se comportar.

Como assim você mudou de opinião? Não é o que você disse nesse post de maio de 2015 com trezentas curtidas.

Já se discute o direito ao esquecimento4, uma vez que a memória de elefante já foi superada e tudo o que fizemos, dissemos ou postamos sempre poderá voltar para nos assombrar. Assim como as pessoas. Mortos vivos. Rastros eternos.

Reivindiquemos o direito de enterrar os nossos fantasmas do passado.


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1 Digital Nostalgia: Exploring its Emotional Impact on Mood Regulation & Overall Psychological Well-Being. The International Journal of Indian Psychology ISSN 2348-5396 (Online) | ISSN: 2349-3429 (Print) Volume 13, Issue 1, January- March, 2025 DIP: 18.01.234.20251301, DOI: 10.25215/1301.234 https://www.ijip.in

2 https://www.dicio.com.br/nostalgia

3 False Nostalgia in the Digital Age. https://gamma.app/docs/False-Nostalgia-in-the-Digital-Age-0g3n30wlybncoz8?mode=doc

4 A exclusão de informações: Um novo olhar na era digital. https://www.migalhas.com.br/coluna/reforma-do-codigo-civil/410844/a-exclusao-de-informacoes-um-novo-olhar-na-era-digital


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