Entro no carro do motorista de aplicativo. Banco de trás. Bom dia pra cá, bom dia pra lá.
– Rodrigo? Sim.
– Santa Rita Durão? Isso.
Silêncio momentâneo, carro em movimento. O motorista:
– Você prefere ar condicionado ou posso deixar as janelas abertas?
Respondo que pode deixar a janela mesmo, tá ótimo.
Mexo um pouco no celular, a janela escancarada. Como um bom brasileiro especialista em segurança pública e mineiro, que puxa conversa com deus e o mundo, comento:
– O pessoal agora tá roubando é celular do passageiro, né? Tem que tomar cuidado. Lá em São Paulo (aquela megalópole, não a nossa roça aqui) estão até quebrando vidro – Digo com a intenção de exemplificar que aqui ainda não está tão ruim.
O motorista se interessa pelo tópico, mas se limita a concordar e cravar aquele famoso “encerra assunto”:
– É, tá difícil mesmo!
Silêncio, trânsito.
O motorista:
– Cara, eu não costumo comentar essas coisas, mas acho que eu posso falar.
Por um momento, me sinto próximo de alguma revelação e até deixo o celular de lado. Será que sentei no vômito? Serei assaltado? Ele vai se declarar pra mim e pedir o meu telefone? Como vou explicar que ele entendeu errado? Eu só sou mineiro, moço.
A coisa está pra ficar interessante.
– O quê? – Pergunto.
– Você está sentindo algum cheiro aí atrás? – questiona, hesitante.
– Cheiro? Não. Você diz um cheiro ruim?
– Isso. É que entrou uma passageira aqui antes de você e nossa… Nem gosto de falar essas coisas….
– O quê? Tava fedendo?
(Intervalo para o narrador: que palavra feia, não é mesmo? Porém, extremamente ilustrativa. Só de falar a gente já sente o cheiro. Fedeu aí?).
O motorista:
– Nossa, o cheiro tava ruim demais! Ela tava com um chulé! E ficava tirando a sandália e colocando no tapete. Fiquei até com medo do próximo passageiro notar.
– É, aí é difícil mesmo (eu, tentando encerrar o assunto). Mas não tô sentindo nada não, tá tranquilo.
– Ah, que bom. Fiquei preocupado. E eu nem sou de falar essas coisas, sabe?
(Novo intervalo: eu acho que é sim, moço. Quem fala que não é, costuma ser. E muito).
– Eu te entendo. É complicado. E tem uns calçados que dão chulé mesmo. Ela devia estar andando muito – Disse eu, tentando, de forma inexplicável, defender a pestilenta desconhecida.
O silêncio que se segue é cheio de expectativas.
O que rolou aqui? Clima de revelações no ar.
Eu, diante do abismo do silêncio e culturalmente forçado a jogar conversa fora (é sério, eu aceno com a cabeça pra qualquer coisa que se mova na rua – “opa!”, “bão?”, “bão!”), me compadeço e passo a compartilhar a minha própria história de chulé:
– Eu mesmo, no trabalho, a gente usa uniforme, né? Tem que usar tênis preto. Eu custei a encontrar um que não me dava chulé. Esse aqui é furadinho. Eu tava usando um que todo dia eu chegava em casa e eu tava com chulé!
(Percebam que, quando se refere ao meu próprio odor, não digo “que eu estava fedendo”, porque aí já seria um insulto).
O motorista:
– É, é difícil mesmo. Às vezes a gente nem percebe, né? Que nem a moça, coitada. Mas eu não sou de falar essas coisas, você até me desculpa.
Lição de hoje: talvez você seja o desconhecido fedido do carro de aplicativo, mas eu não sou de falar dessas coisas.

Essa foi uma newsletter inspirada pelo “escreva sobre o que te acontece”, da mundinho ale br
Terminei de ler dois livros interessantíssimos.
“O adversário”, do Emmanuel Carrère. O livro mistura auto ficção, biografia e reportagem, e narra a investigação do crime cometido por Jean-Claude Romand, um francês que, em 1993, matou a esposa, os dois filhos, os pais e o cachorro da família, diante da ameaça de que sua vida mentirosa fosse descoberta.
O outro é “Matéria Escura”, do Blake Crouch. Esse traz uma história de ficção científica, na qual um pesquisador consegue descobrir uma forma de acessar outras realidades paralelas à nossa, entrando numa espécie de multiverso. O livro é bem dinâmico e agrada quem se interessa por esses assuntos quânticos.
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Escolho começar frustrando todas as expectativas: ensaios, contos e mais algumas opiniões é uma coletânea de textos escritos ao longo de mais de uma década.
São 29 ensaios/crônicas e 09 contos, publicados no período de janeiro de 2014 a março de 2026.
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Pra você ler 📚:
- Nina Nina Não #70: Deus no comando, por Nina Rocha
- Antes de Roma, por Fal Vitiello de Azevedo
- Jogo da Velha 48: Corta essa!, por Noemi Jaffe
E pra você ver e/ou ouvir 🎧:
- Melissa Aldana é uma saxofonista tenor chilena. Além de obviamente influenciada pelo jazzista John Coltrane, ela também curte o Sonny Rollins, saxofonista norte americano responsável pelo maravilhoso “The Bridge”, de 1962, entre outros.
- Ainda na onda do jazz, The Cosmic Tones Research Trio é um trio norte americano que circula mais pelo chamado jazz espiritual, com algumas experimentações e um som mais “transcendente”. O disco que leva o nome da banda é excelente.
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