Psicólogos nas prisões e o cuidado encarcerado

Quem me acompanha, sabe que estudo o trabalho nas prisões há algum tempo. Primeiro, foi a vez dos policiais penais que atuavam em um manicômio judiciário. Em seguida, foi a vez dos psicólogos que atuam nas prisões. Sigo trabalhando na área e me interessando pelo assunto.

No fim do ano passado, tive o prazer de publicar, em coautoria com o professor Carlos Eduardo Carrusca, do Programa de Pós Graduação em Psicologia da PUC Minas, mais um artigo derivado da minha tese de doutorado na Laboreal, uma revista científica internacional e interdisciplinar. O periódico é dedicado aos estudos sobre trabalho e vinculado à Universidade do Porto, em Portugal, particularmente à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação.

Intitulado “Psicólogos nas prisões brasileiras: adoecimento psíquico e desafios do cuidado encarcerado“, o artigo faz parte do dossiê temático Cuidar e tratar: atividades e desafios do trabalho no campo da saúde, que se propõe a “dar visibilidade às diferentes e diversas formas de cuidar e tratar, desenvolvidas tanto em contextos institucionais quanto em outros espaços do viver”.

Registros da pesquisa de campo, do lado de dentro

No texto, nos debruçamos sobre uma das dimensões mais preocupantes que a pesquisa revelou: o adoecimento dos profissionais que atuam no cárcere. A impossibilidade de o psicólogo desenvolver um trabalho ético e orientado ao cuidado faz com que o sofrimento psíquico e o risco de reproduzir a lógica punitiva das prisões sejam elementos constantemente presentes.

Para quem não conhece ou lida com o ambiente prisional diariamente, basta imaginar que estamos falando de um profissional de saúde responsável por oferecer escuta e assistência em um contexto marcado por repressão, violência e condições precárias.

No artigo, trazemos relatos como este, que mostra a luta interna de um psicólogo para não perder a empatia:

“É uma constante luta para você não perder sua humanidade. Aqui, você presencia o pior e o melhor do ser humano, tanto por parte dos funcionários, por parte do Estado, quanto por parte do interno, né ? Do preso. E aí você tem que lutar, diariamente, para não perder sua sensibilidade, de sua humanidade, e ficar surdo. De perder a empatia, principalmente, sabe ? Que eu acho que isso que é minha luta diária, de não perder a minha empatia pelo sujeito ali”.

Em outro exemplo, o desgaste fica ainda mais evidente:

“Eu desconheço alguém que trabalha no sistema prisional que, de alguma forma, o lado emocional também não é impactado… Eu não sei até quando que eu vou me permitir a trabalhar no sistema prisional”.

A percepção de alterações no próprio comportamento também é nítida:

“Fiquei uma pessoa mais introvertida. Não chega a ser arredia, mas eu fiquei um pouco mais resguardada, e eu acho que foi em função do sistema. Um cuidado maior, sabe ? Uma sensibilidade mais aguçada, uma certa irritabilidade”.

Como indicamos no texto, os caminhos possíveis para modificar, em algum grau, a realidade apresentada perpassam a criação de dispositivos que fortaleçam o coletivo de trabalho dos psicólogos atuantes nas prisões e que envolvam não só a produção de alianças internas, no âmbito do sistema prisional, mas também de alianças externas com setores da sociedade vinculados à defesa dos direitos humanos e ao monitoramento das situações ocorridas no interior dos presídios.

A construção de alternativas para o enfrentamento dos problemas expostos não é simples. Além do desconhecimento acerca do que se passa nas prisões por grande parte da população, ainda lidamos com uma opinião pública pouco sensível e simpática às causas que envolvem esse público.

Infelizmente, falamos de uma instituição que viola sistematicamente os direitos humanos fundamentais, mortifica os trabalhadores e os custodiados, pune por punir e reflete o desejo de vingança presente na sociedade.

Ou seja, reverter ou minimizar o cenário de adoecimento de quem trabalha nas prisões implica uma profunda transformação das lógicas que sustentam as relações de poder no sistema carcerário e na instituição penal. Nesses termos, as barreiras impostas à atividade do psicólogo evidenciam que há muito a ser feito.

Frases como “a prisão é um espelho da sociedade” ou “a forma pela qual tratamos os nossos presos revela bastante sobre nós” são frequentemente utilizada em discussões sobre o tema e revelam uma verdade difícil de engolir, porém necessária.

Conhecer o trabalho de quem lida diariamente com esse mundo, artificialmente separado do resto, talvez seja um dos primeiros passos para tentar garantir, ao menos, o que dizemos em nossas leis e tratados.

O artigo completo pode ser lido aqui 🔗.


Para quem se interessar mais pelo tema, indico outros textos:

Resumo: No Brasil, a Lei de Execução Penal visa efetivar a sentença criminal e orientar o retorno do preso à sociedade. Entretanto, as prisões brasileiras são marcadas por repressão, violência e condições precárias. Tomando por referência a centralidade do trabalho na análise das relações entre processos de subjetivação, saúde e adoecimento, este estudo investiga a atividade dos psicólogos que avaliam e acompanham a saúde das pessoas custodiadas. Realizou-se análise documental, observação, entrevistas e grupos de discussão. Os achados revelam fortes barreiras institucionais que impedem o desenvolvimento de uma atuação orientada ao cuidado ; consequentemente, muitos psicólogos experimentam sofrimento psíquico e correm riscos de reproduzir a lógica punitiva, possível expressão de um trabalho que não consegue se desenvolver em face dos constrangimentos institucionais. O fortalecimento do gênero profissional, a construção de alianças e a necessidade de refletir criticamente sobre a função social da Psicologia no sistema de justiça destacam-se como estratégias de enfrentamento.

Referência eletrônica

Rodrigo Padrini Monteiro e Carlos Eduardo Carrusca Vieira, «Psicólogos nas prisões brasileiras : adoecimento psíquico e desafios do cuidado encarcerado», Laboreal [Online], Vol.21 Nº2 | 2025, posto online no dia 19 dezembro 2025, consultado o 09 janeiro 2026. URL: http://journals.openedition.org/laboreal/24566; DOI: https://doi.org/10.4000/15dzn


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