Eduardo e a bexiga

Eduardo agitou-se na cadeira. Era hora de levantar um pouco, espairecer e tirar a água do joelho. Passava grande parte do seu dia no escritório, sentado, imerso em documentos e letrinhas digitais. Fazia o seu esforço para esticar as canelas, no bom sentido. Nos últimos meses, vinha contabilizando quantas vezes se levantava para encher sua garrafinha de água e outras para ir ao banheiro. Dez, em média, considerando dias normais e as variações de temperatura e ambiente. Não teria pedra nos rins, disso ele tinha certeza.

Ilustração: Alessandro Gottardo

Ilustração: Alessandro Gottardo

Naquele dia, como em todos os outros, Eduardo torcia intima e silenciosamente para que o banheiro estivesse vazio. No caminho que o separava do trono, observava possíveis candidatos e companheiros que se dirigiam ao mesmo destino, e rezava para que mudassem de ideia. O rapaz não era tímido, não. Não tinha nenhum problema de ansiedade crônica, distúrbio social ou esquisitice incurável. Nada disso. Eduardo sofria do que, na medicina asteca, chamam de “bexiga tímida”. Em síntese, a impossibilidade de mijar na companhia de outras pessoas.

Não era de hoje que o rapaz queimava neurônios refletindo sobre o assunto. Por que, diabos, alguém supôs, em algum momento da história ocidental, que homens gostariam de urinar enfileirados paralelamente, como em um ritual sagrado de satisfação fisiológica coletiva? Para Eduardo, isso não fazia sentido. E aqueles que gostavam de bater um papo durante o ato? Discutir esportes ou política enquanto se aliviam, quem sabe até atender a uma ligação no celular? Nada disso era familiar a Eduardo. Para o rapaz, esse momento clamava concentração.

Os egípcios antigos diziam – estudou Eduardo, ainda criança – que a bexiga tímida era uma síndrome séria, presente em oitenta por cento da população, principal motivação dos avanços da engenharia e das construções sanitárias individuais. Higiene? Prevenção de doenças? Nada disso. Há de se atribuir o desenvolvimento ocidental à bexiga e o assunto devia ser levado mais a sério.

Ao longo de sua vida, Eduardo adotara hábitos peculiares, selecionando horários privilegiados – e vazios – para comparecer na casinha. Naquela tarde, dirigira-se ao toalete como num dia comum, atento e discreto. Encontrara o banheiro vazio. Benção dos deuses – pensou Eduardo – mais um mijo em companhia apenas de seus pensamentos. Endireitou-se, abriu o zíper da calça, retirou o instrumento que lhe foi provido pelo Criador e pronto, bastava a natureza cumprir o seu dever. Digo, algo vibrava. No bolso, seu celular chamava com urgência, como os celular sempre o fazem. O momento havia passado. Não atendeu, mas a natureza havia sido incomodada. Mais alguns segundos até que se concentrasse novamente.

Alguns segundos mais tarde, o silêncio se fez presente. Tudo em paz. Bora resolver esse assunto e voltar ao trabalho. Ou não? Assobios e conversas ao longe se dirigiam de modo ameaçador na direção de Eduardo. Colegas – pensou – malditos colegas. Em alguns segundos, o banheiro se tornara o boteco da esquina. Todos conversavam, se cumprimentavam, se aliviavam e lavavam as mãos – ou não – de forma aleatória. Um deles entrara na cabine e, com certeza, cumpriria um dos “número dois” mais demorados da história recente. Ficaria ali para sempre – gritou por dentro, Eduardo.

Estava naquela posição apenas há alguns minutos, mas que pareciam uma eternidade. Todos haviam saído, mas restava aquele na cabine, em silêncio, um silêncio avassalador. Começou a suar frio, pensar se deveria deixar pra lá ou, quem sabe, abordar o problema com o amigo? Não, que cena ridícula. Esperaria, isso não podia durar muito.

Cerca de vinte minutos se passaram, o rapaz cumprira seu dever e deixara o toalete e, enfim, a paz foi reestabelecida. Sossegado e com dores na coluna, Eduardo mijou como se não houvesse amanhã. A natureza cumpria seu ciclo sagrado. Sentindo um misto de alívio e formigamento nas extremidades, sua bexiga tímida regozijou-se e, aos poucos, o rapaz se recompôs. Era o único, não tinha dúvida. Os egípcios estavam errados. A batalha estava ganha, mas a guerra…

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