Onde tudo acontece

Não quero ser radical. Não quero dizer que a vida digital nos afasta ao invés de aproximar. Que estamos esquecendo de viver o momento para apenas registrá-lo. Já tem bastante gente falando sobre isso. Quero apenas ressaltar o espanto que senti ao me deparar, nos últimos dias, com uma daquelas situações que caracterizo como “onde tudo acontece”.

Ilustração: Brian Wilcox

Ilustração: Brian Wilcox

Nunca fui um ser da tecnologia. Demorei a entrar para o mundo dos Iphones. Galguei os degraus das redes sociais aos poucos e, em algum tempo, já possuía login em cinco ou seis para administrar. Uma só para fotos, uma para os amigos e colegas, outra para poucas palavras, aquela para minha vida profissional, uma para desenhos e imagens, etc. Alguns cliques aqui e ali, e pronto, tudo interligado. Compartilhado em uma, compartilhado em todas. Me tornei um ser digital.

Foi apenas há alguns meses que senti o clique, um outro, diferente daquele lá de cima. Foi mais um insight, uma chave que gira na sua mente e pimba!, foge algo que você não sabe explicar o que é. Quis me desvincular. Apagar as contas das redes sociais. Não compartilhar mais nada. Não registrar, só viver. Tudo bem, eu sei que é clichê. Quero dizer, será que é mesmo? Não interessa.

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Moisés espera a palavra de Deus

Desde então venho sumindo do ambiente virtual e tentando, aos poucos, voltar ao mundo real. Já se falou muito sobre a ilusão proporcionada por redes como o Facebook, Instagram ou Twitter, ao lhe atribuir duzentos e cinquenta amigos, ou mil e quinhentos seguidores, lhe tornando quase uma celebridade. Na realidade, quando paramos um pouco, enxergamos alguns amigos e colegas aqui e ali, aqueles leais, sempre presentes ou apenas ocasionalmente, porém concretos.

Na semana passada, tive a oportunidade de conversar por algumas horas com amigos que a rotina os fez parceiros habituais. Aqueles aos quais nos acostumamos a um papel superficial, de poucos diálogos sérios ou profundos. Na mesma sala, nos entregamos a uma discussão de corpo presente e, o que mais interessa, de mente também. É impressionante como em algumas horas de palavras sinceras podemos nos aproximar semanas, meses ou anos daqueles que achávamos distantes.

O avanço da tecnologia nos permite estar próximos em momentos inimagináveis, nos privando de sentimentos angustiantes provocados pela distância e pela saudade. É inegável sua contribuição. Entretanto, é também inegável a importância de momentos repletos de palavras e proximidade, de olhos nos olhos, esforços reunidos para se estar presente em um mesmo tempo e local. Seja nostalgia, medo do futuro ou negação da mudança inevitável, o curto ou longo espaço de tempo em que ali estamos próximos, juntos, será sempre o momento onde tudo acontece.

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