Por que você ainda não faz o que gosta?

Sinto que algo está errado e creio que vivemos duas realidades muito distintas, frutos de expectativas, pelo menos a princípio, inalcançáveis.

Por um lado, temos o trabalhador insatisfeito, que entende muito bem o significado da síndrome da segunda-feira ou do domingo à noite –aquela angústia e desespero pontuais que preveem a volta ao trabalho, de comparecer àquele emprego chato, porém, um mal necessário. Eu odeio meu trabalho, meu chefe, meus colegas insuportáveis, meu salário baixo, e a lista segue extensa.

Imagem: Will Tirando

Imagem: Will Tirando

Por outro lado, temos o profissional ideal, aquele mostrado em palestras motivacionais, que todos gostaríamos de ser. É a pessoa que ama o que faz, ama seu trabalho e conseguiu a tão desejada realização, de fazer o que gosta. Eu gosto de trabalhar, adoro meu ambiente de trabalho e me sinto realizado, encontrei aqui o sentido da vida. Que inveja.

Não existem apenas esses perfis e, obviamente, cito aqui só opostos extremos. Me arrisco a dizer que conhecemos mais colegas do primeiro tipo que do segundo, e me pergunto o motivo disso.

Respondo rápido:

1. Nos habituamos com representações negativas do trabalho, a não gostar de trabalhar e valorizar excessivamente feriados, folgas e fins de semana. 2. O segundo tipo possivelmente nem existe.

Para quem odeia o trabalho, lhe resta pensar – só sou feliz de férias ou no fim de semana, o resto do tempo fico esperando ter folga de novo. É um pouco triste pensar que podemos passar nossa vida inteira nessa linha de raciocínio, quando praticamente 22 dias do mês somos tristes e apenas 08 somos felizes.

Minto, também existem as sextas-feiras, dádiva sagrada e dia em que posso postar na minha rede social em caixa alta: uhu! Hoje é sexta-feira!

Mas, disso já sabemos. E aquele profissional ideal que eu queria ser? Onde está? Acho válido questionarmos a real possibilidade de existir esse ideal.

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Quer dizer então que se não odeio meu trabalho, tenho que amá-lo? Não tem um meio termo não? Há mais meio termo do que qualquer um dos opostos.

Mas, podemos todos ser profissionais realizados? Fazer o que gostamos apenas? Porque criar um ideal o qual, sejamos sinceros, pouquíssimos irão alcançar? É uma igualdade de realizações bem pouco provável.

Se vivemos numa cultura da beleza, do individualismo e do aproveitamento de uma vida bem vivida, onde temos padrões inalcançáveis de perfeição e propagandas de chinelos que nos mostram o que é realmente viver, sendo #lifeaholics e aproveitando cada segundo, no trabalho não poderia ser diferente.

Somos cobrados para ser autônomos, criativos, talentosos, providos de iniciativa e outras habilidades, enquanto encontramos ambientes empresariais desigualmente competitivos, inseguros, pouco abertos à mudança e a discussão sobre o trabalho que realizam. É um paradoxo e uma tortura.

Para Enriquez (1997), a estrutura estratégica de empresas “exige indivíduos que se querem sujeitos (mas que, de fato, são alienados) de seu destino e agentes da história”. Seja tudo ao mesmo tempo e produza bastante, por gentileza.

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Dificilmente seremos o profissional feliz e realizado dentro dos padrões que vemos por aí, porque esse ideal não existe, assim como muitos ideais. Não há justiça para muitas coisas e devemos abandonar certas buscas.

Acredito que devemos questionar o sentido negativo do trabalho, não adotá-lo como castigo, pena ou sacrifício, e resgatar sua representação positiva, enquanto atividade de criação e possibilidade de nos colocarmos no mundo, nos reconhecendo como indivíduos (Bendassolli, 2011).

No entanto, não será perseguindo o ideal de um profissional individualmente feliz e realizado que conseguiremos isso, e sim reconhecendo e enfrentando os conflitos que sempre existirão em qualquer realidade de trabalho.

Referências:

BENDASSOLLI, P. F. Mal-estar no trabalho: do sofrimento ao poder de agir. Revista Mal-estar e Subjetividade – Fortaleza – Vol. X – Nº 1 – p.63 -98 – mar/2011

ENRIQUEZ, E. O Indivíduo preso na armadilha da estrutura estratégica. RAE – Revista de Administração de Empresas São Paulo, v. 37, n. 1, p. 18-29 Jan./Mar. 1997

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