Reflexões sobre violência e Psicodrama – Parte II

A violência se justifica como projeto fundante ao avesso. Como não houve criação, o indivíduo violenta o vazio de sua desgraça.Como não foi visto, destrói tudo o que não lhe vê.Como não foi amado, odeia tudo o que foi negado (MERENGUÉ, 2003).

Ao continuar minha pesquisa da bibliografia sobre o tema “violência e Psicodrama” (leia aqui a Parte I), conheci um texto de Devanir Merengué (2003) que, apesar de não abordar diretamente o assunto, faz uma interessante análise da relação entre violência, criação e destruição.

J. L. Moreno é conhecido por sua visão de um homem criador, espontâneo, um gênio em potencial. Confere grande importância à espontaneidade – energia inerente ao ser humano, intimamente ligada à ideia de adequação e adaptação, tratando-se de uma resposta adequada pelo indivíduo a si mesmo e ao meio em que ele vive – e a criatividade – capacidade de modificar, estabelecer uma nova situação, no sentido de produção, progresso e crescimento (MARTIN, 1984; GONÇALVES; WOLFF; ALMEIDA, 1988).

Aliadas, a espontaneidade age como catalisador da criatividade, dando origem a um produto acabado, a conserva cultural (MORENO, 1992; 1997), ou seja, nossos costumes, produtos, obras e comportamentos.

A impressão de Merengué (2003) ao comentar o filme “Cidade de Deus” apresenta a visão que acredito ser a da maioria: “A palavra violência está associada a destruição, sendo o seu contrário, a criação. De modo geral, criação diz respeito a algo bom, ligado à vida. A destruição é temida, pois lembra a morte”.

Dito isso, me pergunto: e se a violência for vista como criação?

Imagem do filme "Cidade de Deus"

Imagem do filme “Cidade de Deus”

O próprio autor começa a responde-la ao dizer que “lembramos menos que criamos sistemas injustos, a bomba e tantos outros malefícios para o próprio homem” (MERENGUÉ, 2003) e também ao sugerir a possibilidade  de que o ato violento seja uma criação no vazio de um indivíduo que não foi visto ou amado, ao qual muito lhe foi negado, inclusive referências maternas e paternas.

Não que seja o discurso repetido de uma sociedade excludente, que gera o criminoso vítima da pobreza e que o isenta de responsabilidade, mas sim uma resposta do indivíduo à ânsia de criação, do reconhecimento social e de posicionamento na realidade, sentimentos tão comuns a todos nós.

A violência destrói e cria ao mesmo tempo. Cria a afirmação social do violento e destrói a liberdade do violentado. Cria o medo crescente do dominado e infla a segurança de si do dominador.

Mas se pensarmos na violência como uma criação e não apenas destruição, pensamos também que ela faz parte da natureza humana?

Responder a essa questão facilita nosso entendimento do comportamento violento. La Taille (2009) nos atualiza sobre a questão e ao questionar se a violência corresponde a um instinto agressivo ou simplesmente a uma estratégia para se alcançar determinados fins, afirma que “a hipótese do instinto agressivo não somente é reducionista como nos impede de perceber que os atos violentos costumam ter variadas causas e não serem expressão de uma suposta natureza humana” (LA TAILLE, 2009).

O autor ainda ressalta que discutir a violência como um instinto ou como condição natural do ser humano, além de o banalizar, é de pouca ajuda para a compreensão do fenômeno.

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Ilustração: Shout

Se a criação faz parte da natureza humana, assim como o poder de modificar a realidade ou inventar novas contingências,  é possível que seja do ser humano a capacidade de ser violento, de adotar este comportamento se assim lhe for exigido, de acordo com as circunstâncias e possibilidades que lhe foram dadas. No entanto, não seja talvez de sua natureza a destruição.

Sendo assim, será interessante pensar na violência como criação na medida em que o homem não seja naturalmente destrutivo?

Entender a violência, mais do que assumi-la como consequência inevitável, é compreender o homem em seu meio relacional, em seu contexto, em seu ambiente. Assim como afirmam Teixeira e Porto (1998), a violência vem sendo entendida muitas vezes “como um saldo negativo e anacrônico de uma ordem bárbara que precisa ser controlada a qualquer preço ou como resposta a uma sociedade geradora de rejeições, de exclusões […]” e tal compreensão pode nos levar a considera-la como a destruição aterradora que está distante de nós, os seres criadores e pacíficos.

Não estaremos assim apenas aumentando o buraco da intolerância e da incompreensão?

Perdeu a Parte I? Leia aqui.

Referências

GONÇALVES, Camilla Salles; WOLFF, José Roberto; ALMEIDA, Wilson Castello de. Lições de psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Agora, 1988. 110p

LA TAILLE, Yves de. Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos in Temas em Psicologia – 2009, Vol. 17, no 2, 329 – 341 Dossiê “Psicologia, Violência e o Debate entre Saberes”

MARTIN, E. Psicologia do encontro: J. L. Moreno. São Paulo, Duas Livrarias, 1984. p.119 a 157.

MERENGUÉ, Devanir. VIOLÊNCIA E CRIAÇÃO: observações psicodramáticas sobre o filme Cidade de Deus. Publicado na Revista Brasileira de Psicodrama. Vol.II, no. I, ano 2003.

TEIXEIRA, M. C. Sanches e PORTO, M. do Rosário Silveira. VIOLÊNCIA, INSEGURANÇA E IMAGINÁRIO DO MEDO. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 47, dezembro/1998.

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