Reflexões sobre violência e Psicodrama – Parte I

Como podemos enxergar o fenômeno da violência do ponto de vista da Socionomia, utilizando conceitos de J. L. Moreno e elementos do Psicodrama?

Escolhi dois pontos específicos para refletir inicialmente: o desempenho de papéis sociais e o comportamento espontâneo.

A princípio, a visão relacional já nos mostra um aspecto fundamental da violência, ou seja, para que ela exista, são necessários o violentado e o violentador, ou seja, no mínimo dois personagens envolvidos. Afinal, um papel exige um contra papel, o papel complementar. Para que eu desempenhe meu papel violento, é imprescindível que exista o papel do violentado.

No caso da violência, o ato violento envolve além de tudo um ato de poder. De acordo com La Taille (2009) é comum, ao pesquisarmos os dicionários, encontrar a coação entre os significados da violência, ou seja, “o uso da força para constranger, física ou psicologicamente, uma pessoa ou um grupo de pessoas”. A violência implica correlação de forças e a privação da liberdade do indivíduo violentado, é um ato de exercício do poder.

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O papel é uma forma de funcionamento e o aprendemos através da interação com pessoas e objetos, na atuação em situações pontuais, desde o início da vida. Primeiramente por imitação, em seguida por sua atuação e finalmente na criação do novo papel. Por exemplo, uma criança imita a mãe em gestos e falas, brinca de ser mãe com bonecas e no futuro desempenhará o papel desenvolvido de mãe, com novos elementos criados por ela.

Sob a ótica do desenvolvimento de novos papéis, é interessante pensar a perpetuação da violência, do papel do agressor, do dominador, assim como do violentado e do dominado. São jogos de poder já consolidados em nossa sociedade e que se apresentam no mais simples relacionamento, entre indivíduos, entre grupos, entre países, etc.

De onde vem o aprendizado do papel de agressor? De torturador? Do que violenta em causa própria ou causa alheia?

Um interessante exemplo da influência da cultura na violência e no sentimento de medo da população é discutido no documentário “Bowling for Columbine” do diretor Michael Moore. O documentário trata da ampla utilização de armas de fogo nos EUA e compara elementos de sua cultura e índices de violência com outros países como Alemanha, Canadá e Inglaterra, questionando a fascinação americana por armas.

bowling_for_columbineO filme tem também como base o atentado ocorrido em uma escola no Colorado, no qual dois estudantes adolescentes dispararam tiros matando 14 estudantes e um professor.

J. L. Moreno acreditava no homem espontâneo e criativo. A espontaneidade para ele está intimamente ligada à ideia de adequação e adaptação, tratando-se de uma resposta adequada pelo indivíduo a si mesmo e ao meio em que ele vive.

Colocando a espontaneidade como uma energia inerente ao ser humano, é ela o catalisador da criatividade humana. Dessa interação, surge um produto acabado, o resultado da criação, a conserva cultural, ou seja, objetos materiais, obras, comportamentos, costumes encontrados em uma dada cultura.

Criamos e repetimos a todo o momento. Conscientes ou não, desempenhamos vários papéis em apenas um dia. Mas quando a atuação do papel violento torna-se o caminho escolhido? Em que momento o comportamento violento é a opção adotada?

Do ponto de vista do ato espontâneo, adequado ao indivíduo e ao meio, o ato violento é inadequado, na medida em que restringe a liberdade do próximo, desorganiza a possibilidade da felicidade e da paz conjunta e atua principalmente a favor apenas de quem exerce o papel violento.

Mas não será espontâneo esse ato para quem o exerce dentro de seu meio? Digo, em sua cultura, no seu ambiente, baseado em seus valores e relações sociais, não será a violência um meio digno e reconhecido de se conquistar algo?

Seja em situações de extrema pobreza e necessidade, ou vingança, por raiva ou tristeza, pela conquista do poder e da riqueza, ou por prazer, o uso da violência é um ato relacional e podemos encontrar na obra de Moreno elementos talvez ainda pouco explorados para sua compreensão e tratamento não só individual, mas social.

Clique aqui para continuar lendo a Parte II da discussão.

Referências

BUSTOS, D. Novos rumos do Psicodrama. São Paulo: Ática, 1992. p.10 a 20.

GONÇALVES, Camilla Salles; WOLFF, José Roberto; ALMEIDA, Wilson Castello de. Lições de psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Agora, 1988. 110p

LA TAILLE, Yves de. Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos inTemas em Psicologia – 2009, Vol. 17, no 2, 329 – 341 Dossiê “Psicologia, Violência e o Debate entre Saberes”

MARTIN, E. Psicologia do encontro: J. L. Moreno. São Paulo, Duas Livrarias, 1984. p.119 a 157.

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