Ouça “Praia dos Ossos”

No site do podcast, uma síntese: “No dia 30 de dezembro de 1976, Ângela Diniz foi assassinada com quatro tiros numa casa na Praia dos Ossos, em Búzios, pelo então namorado Doca Street, réu confesso. Mas, nos três anos que se passaram entre o crime e o julgamento, algo estranho aconteceu. Doca tornou-se a vítima”. O podcast, produzido pela Rádio Novello, sediada no Rio de Janeiro, é uma série que vai além do assassinato da “socialite mineira” Ângela Diniz, e discute machismo e violência contra a mulher.

Trailer do Podcast Praia dos Ossos disponível no canal da Rádio Novello no Youtube

Na seção dos créditos, descobrimos que o podcast vinha sendo construído desde janeiro de 2019, com mais de 50 entrevistas, 80 horas de gravações e muita bibliografia. A série foi lançada em diversas plataformas em setembro/2020 e conta com oito episódios, com mais ou menos uma hora de duração cada, todos eles com uma produção que combina a narração de Branca Vianna, idealizadora e apresentadora, com trechos de entrevistas originais, áudios antigos, leitura de documentos, entre outros.

Quem é minimamente atento ao que acontece na sociedade em que vivemos, sabe que a cultura machista e a violência contra a mulher são problemas antigos, crônicos e ainda presentes nos lares e nas ruas. “Apanhou porque mereceu”, “morreu porque pediu” ou “não devia estar rezando, né?”, são frases muito mais comuns ao se discutir um episódio de feminicídio ou qualquer outro tipo de violência praticada contra as mulheres do que se imagina ou se ousa admitir.

Sou homem, branco, ainda posso ser considerado jovem, e com algumas condições de privilégio em relação a muitos outros grupos, historicamente vulnerabilizados e excluídos. Se você acha que não tem dessa de privilégio ou exclusão, deveria estudar melhor a história do Brasil. Você provavelmente está enganado.

Sendo assim, não escapo da nossa criação em uma cultura machista – por mais que meu pai, por exemplo, seja uma agradável exceção na regra do macho preconceituoso e idiota -, o que faz com que esses argumentos e justificativas venham quase que automaticamente ao se observar a realidade. Isso não quer dizer que estejam adequados, muito menos corretos, só diz de algo muito errado em nossa concepção sobre as pessoas, seus direitos e o bem comum.

Ângela em 1962. Acervo Estado de Minas – Disponível em https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/angela

O caso de Ângela Diniz ilustra, com detalhes biográficos e jurídicos, como uma sociedade que segue “defendendo a honra do homem” se comportou nos anos 1970, 1980, e ainda segue se comportando de modo injusto e reacionário, muitas vezes. Com homens e mulheres machistas. Um pensamento dominando os comportamentos e reações. Cabe lembrar que o Brasil é o 5º país em mortes violentas de mulheres no mundo.

É importante lembrar que o caso se tornou emblemático por envolver pessoas “de prestígio” na sociedade, ou seja, brancas, com dinheiro e poder, mas que a violência contra a mulher, inclusive os feminicídios, atingem principalmente meninas e mulheres negras. Nesse sentido, é interessante notar como as próprias mulheres se opunham ao feminismo que se colocava, como algo “de mulheres mal amadas” ou “mal resolvidas”, ou mesmo “solteironas”. Isso ainda ocorre.

Para além do interesse no crime, em si, o suco cultural que envolve todos os episódios é o que mais me chamou atenção. Como nos lembra Branca Vianna, no sétimo episódio, se não estou enganado, uma onda progressista e que traz avanços nos direitos das minorias sociais e caminham no sentido de uma sociedade justa, sempre enfrenta um efeito backlash, “definido pelo Dicionário de Cambrigde, de inglês britânico, como ‘um sentimento forte entre um grupo de pessoas em reação a uma mudança ou a um evento recente na sociedade ou na política’. Ou seja, avanços provocam reações conservadoras, como temos visto nos últimos anos no Brasil. Ou seja, a mudança de cultura não é rápida, nem linear, mas acontece e exige esforço. E paciência.

Recomendo bastante a escuta dos oito episódios e a consulta ao material disponível no site criado especialmente para o Praia dos Ossos. Se você ainda não escuta podcasts, pode ser uma boa oportunidade para começar. No fim série, ainda contamos com uma importante conversa sobre o sistema de justiça e o paradigma de justiça restaurativa e responsabilização, e sobre como não saímos do lugar com a ideia de que prender, punir e se vingar dos criminosos, da forma como o fazemos, resolve alguma coisa.

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2 Respostas para “Ouça “Praia dos Ossos”

  1. O mais intrigante neste assassinato é realmente o réu virar vítima e me lembro muito bem deste absurdo e dos comentários que vieram com este ato. Porém, além da grana, da elite que sempre “esconde” os seus membros como se fosse uma máfia, Ângela era uma pessoa muito além do seu tempo, livre, linda, esnobe e principalmente de muita classe, o que atraía muito os homens. Ela na época, era um perigo para as mulheres bem casadas e muitos sentiram alívio com a sua morte.

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