Por experiência de vida e curiosidade pessoal e profissional, sempre me interessei por conhecer melhor o que há por trás dos transtornos mentais “comuns” e da proliferação do uso de psicotrópicos.
Digamos que a psiquiatria sempre esteve presente, de certa forma, no meu habitat natural, mesmo antes de qualquer envolvimento com a psicologia.
Dito isso, não é de se admirar que um livro como o de Juliana Belo Diniz me chamasse a atenção. Uma bela edição, por sinal.
Com o título chamativo “O que os psiquiatras não te contam” (Fósforo Editora, 2025), o livro publicado pela psiquiatra, neurocientista e doutora pela USP assume a difícil tarefa de questionar uma afirmação que parece tão “verdadeira” em certos discursos médicos e sociais: os transtornos mentais são doenças do cérebro.

Não, não são. Pelo menos, não somente.
Quando falamos de transtornos mentais comuns, como os depressivos e os de ansiedade, não há evidências que possam comprovar essa conexão entre um determinado conjunto de sintomas psiquiátricos e alterações em estruturas ou no funcionamento do cérebro. Ou mesmo de traços hereditários ou algum desequilíbrio químico.
É em torno da premissa de que “pôr a culpa no cérebro não é um detalhe desimportante” (p.10), enquanto estratégia da psiquiatria para se firmar como uma especialidade médica, que a escritora Juliana Belo constrói o seu argumento.
Organizado em três partes, o livro de Juliana busca, primeiramente, trazer a sua visão da prática psiquiátrica, da importância da confiança e da escuta, além de desconstruir alguns mitos criados em torno do funcionamento das drogas psicoativas e da história dos tratamentos farmacológicos.
A maior parte dos tratamentos que usamos hoje são versões do que já existia na década de 1960. Portanto, focalizar o cérebro como causa de nosso sofrimento corresponde muito mais a um desejo de encontrar todas as causas do sofrimento nele do que a uma conclusão baseada em resultados científicos que confirmem que é la que encontraremos as soluções para os nossos problemas (p.11).
Com referência em diversos estudos, a autora descreve o nascimento dos antidepressivos e os argumentos adotados pela indústria farmacêutica para promover drogas que passaram a compôr o imaginário social, como Prozac e Ritalina.

Juliana Belo se preocupa, ainda, em reforçar que “reduzir tudo ao funcionamento do cérebro obscurece outras fontes importantes de impasses e conflitos” (p.86), como os determinantes sociais da saúde, amplamente discutidos na saúde pública e que contemplam fatores políticos, sociais, econômicos e culturais.
Nem tudo pode se resumir a manipular neurotransmissores.
Ao atribuir emoções apenas a um desequilíbrio químico que “foge ao nosso controle”, por exemplo, podemos estar mascarando causas mais profundas daquilo que sentimos e focando somente na redução de sintomas.
Nesse ponto, a psiquiatra ressalta o papel da escuta no diagnóstico e na escolha do tratamento:
Enfim, o que acontece na sua vida importa. Se, ao final de uma consulta psiquiátrica, o médico não souber com quem você mora, como você se relaciona com as pessoas mais importantes à sua volta, como é a sua rotina, se você gosta ou não do que faz ou quais assuntos lhe interessam, alguma coisa está errada (p.97)
Na segunda parte do livro, Juliana traz o “incrível mundo das imagens do cérebro”. Sim, estamos, de certa forma, fascinados com a possibilidade de “enxergar” o nosso cérebro colorido em funcionamento.
Contudo, a autora busca trazer o leitor de volta à realidade, já que indica as limitações de determinados exames de neuroimagem.
Juliana diz que, ao contrário das expectativas, a reprodução do que ocorre dentro da nossa cabeça, seja em termos de estrutura, seja de funcionamento, não indicou o que seriam os correspondentes biológicos da depressão e dos transtornos de ansiedade, por exemplo.
No contexto do funcionamento cerebral, não sabemos ainda onde as impossibilidades teóricas podem estar. Não conhecemos os limites biológicos do nosso aparelho mental nem os limites tecnológicos da manipulação cerebral (p.161).
Existe, sim, um avanço nas tecnologias para compreender a estrutura e o funcionamento do cérebro, mas como indica a autora, isso ainda não representou, concretamente, uma revolução nos tratamentos farmacológicos, que ainda operam com princípios de décadas atrás.
Por fim, a autora discute a ciência por trás dos estudos do sofrimento humano, abordando a variedade de psicoterapias que hoje coexistem e questionando algumas tendências atuais, que se revestem como “tratamentos baseados em evidências” e adotam uma suposta superioridade técnica. Como se um fosse científico e o outro não.
Juliana comenta que determinadas abordagens são vistas, por alguns profissionais, como “talking therapies” (terapia pela fala) e outras como “treatments that work” (tratamentos que funcionam). É como se uma fosse pra funcionar e a outra só pra distrair, o que é, nitidamente, uma falácia.
Em um texto que deixo indicado abaixo, a psiquiatra discorre um pouco mais sobre o tema em sua newsletter.
O livro conta, ainda, com um excelente posfácio do professor Claudemir Roque Tossato, que faz uma breve, porém importante discussão sobre o conhecimento científico e sua aplicação.
De modo geral, acredito que o livro “O que os psiquiatras não te contam” cumpre um papel importante ao trazer, ao leitor especialista ou não, alguns dos principais elementos que permeiam a nossa convivência com a psiquiatria e os com os remédios psicotrópicos.
Eles estão aí, cada vez mais utilizados, por motivos distintos, apesar de pouco sabermos sobre o seu real funcionamento e sua necessidade. Sim, eles fazem efeito e nos resgatam de buracos variados, mas não devem ser vistos como soluções milagrosas e isoladas. Nem como uma forma de “nos proteger da vida e da realidade”.
Não podemos cair na armadilha de buscar respostas simples para problemas complexos. E, se existe um assunto bastante complexo, é a nossa saúde mental.
Não sou psiquiatra, nem especialista em neurociência. Sou psicólogo e estudo saúde mental e trabalho, portanto não me arrisco a falar do que não conheço em profundidade.
Nesse sentido, o que me cativou no trabalho da Juliana Belo Diniz , até o momento, seja em sua newsletter, seja no livro, é a defesa da complexidade, da prudência e da crítica. E, acima de tudo, do diálogo.
Indico, mais uma vez, os episódios abaixo, da Rádio Escafandro:
155: Sociedade tarja preta – A resposta química
156: Sociedade tarja preta – O mundo lá fora
Encerro com esta excelente passagem do livro que, para mim, resume a mensagem:
O risco inerente a qualquer pensamento reducionista é a produção de soluções míopes, que só enxergam o que está muito próximo e ignoram qualquer outra perspectiva. Que falham em reconhecer os limites da ignorância e que, infelizmente, podem ter consequências desastrosas, mas que poderiam ter sido previstas, não fosse a falta de perspectiva de pessoas em posições de poder e a dificuldade humana de assumir que certas soluções só podem ser complexas, demoradas e imperfeitas (p.200).
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