Escrever, olhando para trás e pra frente, é saber que, o que se diz, é, em igual proporção, extremamente profundo e efêmero.
O que foi materializado na escrita pode permanecer invisível e sem ressonâncias. Ou pode alcançar alguém, aqui, lá ou em qualquer outro lugar.
Escrever sobre si, então, é um ato bastante egoísta e passageiro. Será?
Outro dia, pensei nisso, enquanto lia o meu segundo livro do escritor francês Emmanuel Carrère, “Outras vidas que não a minha” (Alfaguara, 2010).
Neste livro, o autor parte de uma experiência de quando esteve hospedado em um resort de luxo no Sri Lanka e viu os efeitos devastadores de um tsunami, no fim de 2004.
Adotando uma escrita, de certa forma, jornalística e autobiográfica, Carrère fala, como diz o título, de outras vidas que não a dele e de tudo o que acontecia às pessoas ao seu redor, apesar de falar bastante sobre sua própria experiência também.
O talento do escritor para descrever e acessar as emoções humanas é impressionante. É um livro sobre morte, perdas e sobre os caminhos imprevisíveis da vida.
sempre ficamos contentes quando as pessoas que nos amam veem nossos defeitos como razões suplementares para nos amar (p.106).
Este não foi o primeiro livro que li de Carrère. Antes, passei por “Ioga” (Alfaguara, 2023).
Ao contrário de “Outras vidas que não a minha”, “Ioga” é um livro naturalmente pessoal e profundo.

O autor, que iniciou o projeto do livro buscando explorar a sua própria relação com a meditação, faz uma investigação pessoal instigante, revisitando sua vida e construindo um retrato bastante íntimo de si, a partir de eventos que viram a sua vida do avesso.
Diagnosticado com transtorno bipolar, Carrère fala sobre depressão e examina sua própria experiência, transitando entre o romance e a autobiografia.
Se não encontro essas palavras é porque hoje estou distante e apartado demais para ser capaz de lembrar, descrever e nomear o horror no qual eu estava então mergulhado, e sobretudo, acho, porque não existem palavras para isso (p.199).
Cheguei até Carrère por meio de uma menção em “Triste Tigre”, da Neige Sinno, sobre o qual já comentei.
A autora utiliza o livro “O adversário” (Alfaguara, 2026), um dos mais conhecidos de Carrère, para discutir mentira, engano e monstruosidade.
O livro parte de um caso real, ocorrido em 1993, quando Jean-Claude Romand matou a esposa, os dois filhos, os pais e o cachorro. Além disso, encenou um incêndio na casa onde morava e tentou se matar, tudo para evitar que descobrissem que ele era uma fraude, e que apenas fingia ser um médico renomado por quase duas décadas.
A tentativa de Carrère, então, é, a partir de uma troca de correspondências com o próprio Romand, entender suas motivações e como chegou a um ato tão extremo. Como alguém pode mentir e enganar por tanto tempo? Este eu comprei em francês e ainda pretendo ler.

Voltemos, então, ao princípio. Escrever sobre si. Falar de si.
Fazer como eu fiz, quando escrevi sobre mim e os quarenta anos, ou aqui, sobre o que deixamos de definitivo no mundo, é algo pouco comum na minha vida.
Costumo falar pouco de mim e me achar bastante desinteressante. Sem drama.
Contudo, tenho visto o quanto a escrita autobiográfica é poderosa e cativante. E observo que, talvez, eu já faça mais esse trabalho de autoexploração por aqui, entre letras, pontos e vírgulas, do que no mundo “real”.
Escrever sobre mim, então, será egoísta? Autocentrado? Acho que não. É uma espécie de resgate.
Escrever, seja sobre o que for, é fincar os pés no chão, ainda que seja pra voar por aí.
Me repito, claro. A vida se repete, mas se renova, a cada dia e a cada experiência.
Como diz Carrère, em “Ioga”, “Não sou louco: sei bem que todo amor está em risco — que tudo, de todo modo, está em risco” (p.27).
A contar do primeiro choro, tenho quarenta anos e pouco mais de cinco meses de existência neste planeta. Nasci em um hospital da região centro sul de Belo Horizonte, por volta das quatro da tarde, em uma sexta-feira de mil novecentos e oitenta e cinco.
Os primeiros destroços do Titanic haviam sido descobertos poucos dias antes e a ditadura militar no Brasil começava a chegar ao fim. A inflação chegou a 239% e o filme “De volta para futuro” era lançado.

Os cabelos loiros deram lugar aos castanhos, escorridos. As sardas vieram carimbar algum tipo de diferença, logo aqui, à vista, no rosto.
Hoje, gozo de boa saúde física e mental, aparentemente. Enfrentei poucos eventos de saúde até aqui.
Um corte mais profundo no queixo, quando criança. Uma suspeita de traumatismo craniano, não confirmada, também na infância. Um gesso no pulso esquerdo, depois de uma pisada na bola seguida de uma queda banal. Uma ou duas unhas encravadas. Sem cirurgias de grande porte, sem grandes ocorrências.
Meu principal duelo, até aqui, foi com a saúde mental. E, sobre isso, pretendo escrever um dia. Cada um tem o seu duelo de uma vida e ainda não o vejo como passado.
Em “Triste Tigre,” Neige Sinno reflete sobre a escrita do trauma e utiliza um trecho de Virgina Woolf para reforçar que, “se alguém consegue falar do acontecimento, é porque ele está dissociado do sofrimento puro, que é vivido como se fosse irreal. Ele só se torna real quando é apreendido por meio da linguagem” (p.95).
Quando escrever, talvez quase tudo seja verdade. Escrever sobre si não deixa de ser uma boa ficção.
Como bem pontuou Nara Vidal, neste artigo:
A narrativa ficcional, seja a escrita de si, seja a do outro, seja a de um tempo, se bem composta, nunca irá nos proporcionar o que a arte rejeita: certeza.
A escritora acrescenta:
Escrever sobre si é um termo impreciso e exige tanto quanto redigir um romance histórico. Aliás, o tema na literatura me parece ser o que menos importa. Um texto se aproxima do seu valor literário, portanto, artístico, quando a estética e a linguagem, apuradas, diferem-se do que é corriqueiro. Falar da própria vida por meio da liberdade literária é tão arriscado quanto contar a história imponderável da vida do vizinho. O elemento surpreendente é que, talvez, o vizinho seja eu.
Escrever é juntar as partes:
“Somente quando o expresso em palavras é que o transformo em algo inteiro; essa sua inteireza significa que ele perdeu o poder de me machucar; e sinto, talvez porque ao fazer isso eu extraia a dor, um enorme prazer em unir as partes desconectadas. Talvez esse seja o maior prazer que conheço” (p.95).
Me aproximo, cada vez mais, das escritas de si, bastante presente, também, aqui no universo das newsletters.
Somos humanos ávidos por compreender e compartilhar a profundidade e a banalidade de nossa existência.
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