Geraldo foi ensinado, desde pequeno, a ir em busca da própria felicidade e a cuidar da própria saúde. ‘Não deixe que ninguém te faça mal’, diziam os seus pais. ‘O corpo é o seu bem mais precioso’, ressaltavam. ‘Não deixe que te digam que você não merece ser feliz ou te diminuam, de qualquer forma’, concluíam.
Com esse mantra da autoestima e do autocuidado, Geraldo cresceu e se tornou, paradoxalmente, um adulto como muitos de nós:
Que não se arrisca em prol da própria felicidade e prefere o conforto, ainda que incômodo;
Que não cuida do seu corpo como deveria e crê que ele é especial e não perecerá, diferentemente de todos os outros;
E que, sim, se deixa ser diminuído e desmentido, com frequência, porque, “isso” ou “aquilo”, não foi nada demais.
O que deu errado?

Nos últimos dias, tenho feito diversas reflexões com base nesse trecho curto do livro Uma Vida Pequena, da escritora Hanya Yanagihara: “É sempre mais fácil acreditar no que você já pensa do que tentar mudar de ideia”.
Não sei se você já percebeu, mas na parte inferior de uma conhecida lata de atum, constam duas informações seguidas de um asterisco: rico em ômega três e rico em proteína. O asterisco explica: como todo atum.
Esse fato, um tanto quanto inútil, revela que, o que se trata, provavelmente, de uma mera regra da indústria alimentícia, poderia, facilmente, se aplicar a nós.
Deveríamos vir acompanhados por asteriscos. Viríamos com legenda, talvez um manual. Roberto: rico em hipocrisias, como todo ser humano. Cláudia: rica em histórias, traumas, desejos e expectativas, como todo mundo.
É fato conhecido que o atum é uma fonte de proteínas, mas não custa lembrar.
Assim como é fato conhecido que vamos usar palavras como armas, vamos nos agredir e usar os defeitos dos outros contra eles mesmos. Que vamos pisar uns nos outros, em busca da própria satisfação. O amor se confunde, constantemente, ao dano.
É sabido, portanto, que vamos errar. Estamos fadados ao erro. Contudo, não custa lembrar, ainda, que viveremos, muitas vezes e por muito tempo, cegos, de forma voluntária ou não, aos nossos defeitos e falhas. Cegos aos danos que causamos aos outros.
Que, apesar de saber que falharemos com os outros, ainda que estes sejam os que mais dizemos amar, iremos, frequentemente, ignorar esse asterisco e continuar a cruzar a linha que separa o cuidado consigo mesmo da violência e do desrespeito ao próximo. Nossa atrocidade está justificada, está na legenda.
Sabemos. Por que não mudamos?
Em uma semana de altas temperaturas e ar seco, as serras queimam. A silhueta do incêndio se vê de diversos pontos da cidade, marcando uma linha laranja no escuro da montanha. Um horizonte em chamas.
Disseram ao fogo, quando criança, que buscasse a própria satisfação. Que cuidasse do seu corpo ardido e nunca deixasse que o diminuíssem. O fogo cresceu e se tornou um adulto como muitos de nós: que prioriza a própria felicidade e se realiza em combustão, indiferente aos danos que deixa pelo caminho.
No paradoxo, respiramos fuligem.
Em textos misteriosos, a interpretação é livre. Nos sem mistério, também.
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Por hoje, é só. Um abraço!
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