Tempo das cigarras

Quando escuto uma cigarra cantando, meu coração se apressa. “Vai entrar pela janela”, penso eu, já antevendo o risco de uma emergência envolvendo um inseto. Que relação estranha criei com os insetos.

Quando escuto uma cigarra cantando, sei que uma determinada época chegou, mas nunca tenho certeza de qual, porque os dias, as semanas e os meses se atropelam cada dia mais, e é difícil saber se a cigarra entrou pela janela em agosto, setembro ou outubro.

Quando escuto ela cantando, meu coração se acalma e algo se conecta em mim e tenho certeza de que o tempo está passando, mas eu ainda estou aqui, sendo eu mesmo, no acumulado das leves rugas e dores na lombar.

A cigarra é uma companheira, está sempre por aqui, nas redondezas, trepando na parede, na árvore ou nas grades e redes das varandas. É quase um lembrete de que habito esse apartamento, ainda que com intervalos, há mais de dez anos, e muito de mim está aqui, nessas paredes e nesse ar.

Quando escuto uma cigarra cantando, lembro que ela é um símbolo da infância, quando colegas de escola mais corajosos aterrorizavam as meninas e os meninos (menos corajosos) com aquelas cascas nojentas.

Lembro, também, que ela é uma marca do tempo, de que, apesar de tudo, ela sempre vem, nessa época indefinida, entre o meio e o fim do ano, quando faço aniversário e, agora, me aproximo de quarenta anos vividos. A cigarra está comigo há mais de uma década.

Quando escuto uma cigarra cantando, corro para fechar as janelas, antes que ela resolva morar na minha sala (como já morou, algumas vezes), daquele forma gorda e estrondosa, que na natureza é apenas beleza, mas no apartamento pequeno, é apenas incômodo e medo. Passo calor. Eu aqui, a cigarra lá. Ela canta, eu não.

Medo, de uma cigarra. Poxa, tem tanta coisa pra gente sentir medo. Logo da cigarra?

Quando escuto uma cigarra cantando, me tranquilizo por saber que a natureza ainda está por aí, ainda que os ipês rosas e amarelos não floresçam mais na época certa e saibamos – sim, nós sabemos – que o mundo está mudando e acabando sob os nossos pés. Mas que tenho amigos mais próximos, novamente, que me acompanham no passar do tempo. Os amigos e as cigarras ficam.

Hoje vi uma cigarra no chão, de pernas pra cima, já deve ter cantando bastante, mas eu ainda não havia ouvido. Não, a cigarra não canta até morrer. Canta alto, durante sua curta vida de adulto. Chegou o tempo das cigarras, do coração acelerado, da calma e do calor, cada vez mais estranho, mas certo de que, um inseto, apenas, pode ser a marca do tempo em uma vida.

Um abraço.


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