Estamos todos imersos em nossos fones, telas e reuniões virtuais. Um amontoado de gente, cada um no seu mundo. Numa terça-feira qualquer, um dia comum, na copa de uma firma ordinária, a internet caiu:
– Bom dia.
– (Silêncio)
– Caiu a internet. Assim não dá pra trabalhar.
– É… Parece que a internet parou. Eu estava no meio do documento. Será que salvou?
– “Você perdeu a conexão. Estamos tentando reconectar”. Tá naquela tela preta com aquele circulozinho no meio.
– Vou ter que avisar o pessoal no Whats que estamos off.
– Vou tentar voltar pra reunião pelo celular. Às vezes, dá certo.
– Ixi, o meu celular tá fora também… não dá nem pra avisar…
– Deve ser culpa da guerra. Ou o apocalipse.
– Qual delas?
– Boa pergunta.
– Aposto que os cabos ficaram retidos no estreito de Ormuz.
– Aqui tá com um pauzinho de sinal. Já viu aquele filme? Do apocalipse?
– Qual deles? No meu celular, nem isso. Nem um pauzinho.
– É isso, podemos ir embora pra casa (risos). Libera a gente, chefe! Cadê o chefe?!
– Eu vou é tomar um café. Sem internet não dá pra trabalhar.
– Espera, parece que voltou. Deu dois pauzinhos aqui.
– Jura? Agora eu vou terminar o café. Que esperem!
– Não, não… Alarme falso. Nada feito. Segue fora.
– Maravilha. Sem internet não dá pra fazer nada. Aceita um cafezinho?
– Valeu, mas não tomo café. Aqui, você sempre teve essa caneca?
– Essa? Tem uns dois anos já.
– Sério? Não é possível! Eu teria percebido. Adoro esse filme! Já vi umas cinco vezes.
– Seríssimo. Comprei logo que separei.
– Separou? De quem?
– Da Norma, uai. Eu me divorciei, você não sabia?
– Tá brincando… Mas vocês eram tão felizes juntos! Sempre tinha foto de viagem, jantar e passeio na rede.
– Pois é, não tem mais. Saí daquela porcaria. Só falsidade.
– Que porcaria? Da rede ou do casamento?
– O gato ou o Quico?
– Oi?
– Chaves. Você não lembra do episódio?
– Chaves? Nunca assisti.
– Eu jurava que você curtia Chaves. Enfim, saí do casamento. E da rede também.
– Cara, como são as coisas, né? Eu sempre ficava com inveja da relação de vocês. Cada foto mais bonita que a outra.
– Na rede tava ótimo, mesmo. Dentro de casa, nem tanto.
– Não dá pra acreditar em mais nada do que a gente vê mesmo. E foi amigável?
– Nem um pouco. Depois que eu descobri a traição, eu surtei.
– Traição? Como assim?
– Uai, a Norma me botou um par de chifres e eu fui o último a saber. Saí de casa e levei as crianças. Fiquei na minha mãe uns tempos. Agora tô num apartamento aqui perto.
– Caramba. Nunca imaginei. Ela parecia tão boa esposa.
– Na rede parecia mesmo. Dentro de casa, nem tanto.
– Calma… crianças? Vocês têm filhos?
– É claro que temos. O Jorginho, com quatro, e a Manu, com seis.
– Nossa, minha memória tá ruim mesmo.
– Eles até vieram na festa de fim de ano da firma, não lembra? Brincaram um monte com o Bento.
– Bento?
– Bento. Seu filho.
– Filho? Que filho?
– Seu filho. Bento. O Bento não é seu filho?
– Eu não tenho filho. Ainda mais chamado Bento.
– Uai, então quem era aquela criança que estava com você e com a sua esposa na festa?
– Esposa? Cara, eu sou viúvo. Minha esposa morreu há cinco anos. Você foi no velório.
– Você tem certeza? Ela me parecia bastante viva na festa. Ela tava com um vestido verde.
– Acho que eu saberia se ela estivesse viva.
– Não estou entendendo mais nada. Você não é o Ronaldo do RH?
– Ronaldo? Não, eu sou o Mauro do TI.
– Jurava que você era o Ronaldo do RH. Vocês são iguais!
– Iguais? O Ronaldo é careca, pô. Até onde eu sei, meu cabelo ainda não caiu.
– Poxa, confusão minha. Que constrangedor. Mais café?
– Calma, mas então você não é o Gilberto, dos Contratos?
– Lucas, do Financeiro. Prazer.
– Então, o Gilberto ainda está casado com a Norma (risos).
– Com a Norma quem está casado sou eu. O Gilberto, eu não sei. Aliás, nem conheço esse Gilberto.
– Você tem certeza? Jurava que a esposa do Gilberto era Norma também. Eles combinavam muito! Sempre felizes!
– Uai, agora eu até fiquei preocupado. Será que a Norma tem outro marido e eu não sei?
(som de notificação)
– Opa, parece que a internet voltou. O chefe tá chamando aqui. Vou nessa. Foi um prazer, Rubens! Bela caneca!
– É Lucas. Ei! Calma. Me conta essa história da Norma direito aí!
A internet voltou e, de repente, não mais que de repente, como dizia Vinícius de Moraes, voltamos a nos ignorar.
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