As diversas formas de violência contra a mulher vêm sendo tópico de discussão cada vez mais frequente nos noticiários. O assunto é complexo e exige muito mais que apelos jornalísticos e indignações diárias – porém momentâneas – diante de cada novo caso, um mais absurdo que o outro.
Este texto trata de violência, portanto recomendo discrição quanto ao conteúdo. Quero falar sobre o livro Triste Tigre, da autora francesa Neige Sinno, mas preciso de alguns parágrafos antes disso.
Como homem, é assombroso ser confrontado com o que os meus pares têm sido capazes de fazer, mas não digo que seja surpreendente. Afinal, fui socializado no mesmo meio que a maioria dos homens e sabemos que, somos crianças, apenas meninos, somos ensinados, seja pelo exemplo ou pelo discurso, a valorizar a força, a dominação e agressividade, e a suprimir emoções e sentimentos.
Documentários como “O silêncio dos homens” ou iniciativas como as do Instituto Papo de Homem, para citar alguns, buscam abordar e desconstruir essa realidade, tanto ao incentivar a mudança imediata de comportamento, quanto ao propor uma educação diferente para os meninos de hoje e homens de amanhã.
Quero dizer, com isso, que embora seja necessário ficarmos perplexos e nos indignar frente às atrocidades cometidas por homens contra meninas e mulheres, seria hipócrita afirmar que não reconhecemos todos os traços dessa cultura entranhados em nossos corpos e mentes. Somos potenciais agressores e potencias vítimas.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025), por meio da pesquisa “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil“, indicam que boa parte das mulheres já vivenciaram alguma situação de violência, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral.
Portanto, não estou falando apenas dos feminicídios – termo utilizado para diferenciar essa modalidade específica de assassinato, trazendo reconhecimento e visibilidade à desigualdade de gênero e discriminação -, mas de todo tipo de abuso e importunação. Os dados estão disponíveis para dar uma pista do que digo.
Conhecemos alguém que passou por alguma situação. Ouvimos dizer. Vimos a notícia. Sabemos alguma história. O risco inerente ao simples fato de ser mulher, na sociedade atual, está posto e faz parte do nosso dia a dia. Digo “nosso” porque trata-se de um problema coletivo, que deve ser resolvido por todos.
Homem que sou, busco fazer algo, ainda que saiba que poderia fazer mais. E nem é meu objetivo dar lição de moral em ninguém. Essa introdução foi apenas para contextualizar o tema de uma das leituras mais instigantes e profundas dos últimos tempos: Triste Tigre, da Neige Sinno.
Nascida em 1977, na região dos Altos Alpes, na França, Neige Sinno é professora universitária, tradutora e escritora. A autora ficou mais conhecida, por aqui, após a sua participação na 23º Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, no início do segundo semestre de 2025.
Triste Tigre (Editora Amarcord, 2025) é vencedor de diversos prêmios, dentre eles o Prêmio Femina e o Prêmio Strega Europeu, e alcançou grande sucesso na França, em 2023, se tornando um clássico instantâneo, como diz o The Guardian. O livro é o primeiro trabalho da autora publicado no Brasil.
É difícil classificar o livro, já que é uma mistura de relato autobiográfico, diário, ensaio e estudo. Aliás, começo a gostar cada vez mais desse tipo de escrita, que se configura como, nas palavras do escritor Emmanuel Carrère, “o lugar onde não se mente“.
Quando criança, na década de 1980, Neige Sinno foi estuprada pelo padrasto, abuso que foi perpetuado dos sete aos quatorze anos de idade. Neige morava com a mãe, o padrasto e seus irmãos menores, em uma casa precária, localizada em uma região afastada da comuna de Vars.
A violência foi denunciada apenas quando Neige saiu de casa, aos dezenove anos, quebrando o pacto de silêncio ao contar o que tinha vivenciado para a sua mãe, o que culminou no registro do crime junto à polícia, seguido da prisão e julgamento do agressor.

Talvez um grande diferencial deste livro é que a autora insiste em dizer que, em casos como esse, talvez seja mais fácil se colocar no lugar dos vítimas, imaginar o trauma, o choque e o silêncio.
Contudo, ela afirma se interessar mais pelo que chama de carrasco, ou seja, o agressor.
A maioria dos criminosos inventam para si mesmos histórias que tornam aquilo que eles vivem tolerável. A maioria dos pervertidos dizem a si mesmos que aquilo que sentem e fazem tem como origem o amor (p.25).
Ao mencionar o clássico Lolita, de Vladimir Nabokov, a autora discorre sobre o esforço do autor de “entrar na cabeça de alguém que pratica o mal deliberadamente, que sabe que está destruindo outra pessoa e mesmo assim continua” (p.32).
Para ela, imaginar o que se passa na cabeça da pessoa que comete o ato de violentar sexualmente uma criança, por exemplo, é algo “fascinante”, que está além da compreensão.
Como afirma Neige, “nem eu, que vi isso bem de perto, do mais perto que dá para ver, e que me questionei sobre o assunto durante anos, consigo entender, até hoje” (p.10).
Já existem algumas resenhas sobre o livro e não tenho o objetivo de repetir as boas análises já feitas.
O que quero enfatizar aqui é que o livro, para mim, é uma aula de escrita e de elaboração e análise do trauma. Temos a impressão de que estamos sentados em um ambiente intimista e seguro, diante de uma pessoa que expõe, olhos nos olhos, suas fragilidades mais devastadoras, porém de forma serena, atenciosa, não passiva, como quem busca traçar um mapa ou desenhar um retrato.
O texto não é uma confissão, um simples relato de uma criança abusada ou mais um resgate jornalístico de uma tragédia como tantas outras. Não estamos invadindo um espaço proibido, curiosos e ávidos para conhecer as profundezas e limites da maldade humana.
A autora faz o alerta:
“Caro leitor, cara leitora, minha semelhante, minha irmã, preciso então declarar uma coisa, porque não tenho desejo nenhum de enganar vocês: cuidado com minhas palavras, elas estarão sempre cobertas por uma máscara. Não tomem este texto, em seu conjunto, como uma confissão. Não é um diário íntimo, não há sinceridade possível, tampouco mentira. O espaço que pertence a mim não está nestas páginas, ele só existe por dentro”.
Portanto, a escritora deixa bastante evidente a sua posição, refutando a escrita como terapia.
Pelo contrário, a escrita só pode ocorrer depois que o trabalho já foi feito, um pouco do trabalho, essa parte de trabalho que consiste em sair do túnel […] Por fim, talvez seja um escandaloso equívoco a famosa frase de Artaud (citada por todo mundo, a torto e a direito), aquela que diz que não existe nada que tenha sido alguma vez escrito, pintado, esculpido, modelado, construído ou inventado, a não ser para sair do inferno. Na realidade o que acontece é o contrario, ou seja, quem escreve, desenha etc. já saiu de fato do inferno, é justamente por isso que consegue escrever. Pois quando está no inferno ninguém escreve, não conta nada, tampouco inventa, você está ocupado demais em estar no inferno” (p.94-95)
O que me marcou, durante a leitura, é a defesa da autora em torno do que talvez possamos chamar de “estilo” da escrita ou “estética da obra”, não sei. Ao decidir escrever sobre a sua história, da forma como faz, Neige Sinno adota uma postura metalinguística, comentando o próprio texto na medida em que o constrói. Isso é muito interessante.
Por fim, quero destacar a análise brilhante que a autora faz sobre a relação entre a maldade e o poder. Ao falar do estupro, Neige reforça que não se trata de sexo, mas de exercício do poder através da sexualidade, principalmente.
O que é um monstro, exatamente, senão um ser tão fora da norma que não se pode entender, que nem ele mesmo pode se entender? (p.169).
Estamos de falando de dominação e de que como o agressor pode, nas palavras da escritora, determinar como será a vida de sua vítima. A autora usa a expressão em inglês damaged for life, ou seja, machucada ou ferida pelo resto da vida, em tradução livre.
É um livro denso, profundo, maduro e que não pretende eximir o leitor de qualquer impacto. É sobre dor, sofrimento e maldade, mas também sobre a capacidade de utilizarmos o testemunho para denunciar e prevenir o mal praticado de forma deliberada.
Para mim, uma das grandes leituras que fiz nos últimos tempos.
Até a próxima.
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