E se as coisas não fossem como são?

“Não há realmente nada a temer na fantasia, a menos que se tenha medo da liberdade da incerteza”

“A fantasia não apenas pergunta: “E se as coisas não seguissem assim como são?”, mas demonstra como poderiam ser se seguissem de outra forma – roendo dessa forma o próprio fundamento da crença de que as coisas têm que ser do jeito que são” (p.113)

Como é imaginar? Fantasiar? Se perguntar como as coisas poderiam ser diferentes? Como a nossa vida, por exemplo, poderia ter tomado – ou ainda tomar – outro rumo? O quanto estamos exercitando a nossa capacidade de deslumbrar mundos diferentes?

Nos últimos dias, tenho avançado na leitura do livro “Sem tempo a perder: reflexões sobre o que realmente importa”, da escritora estadunidense Ursula K. Le Guin (1929-2018). Como disse no texto anterior, o livro é uma coletânea de ensaios para o público geral, publicados em seu blog, iniciado em 2010, quando a autora tinha 81 anos.

Não conhecia a autora. Contudo, ela é bastante conhecida por seus livros de ficção científica, tendo produzido inúmeros romances, contos, ensaios e poesia. Entre os mais famosos, estão: A mão esquerda da escuridão (1969) e Os despossuídos (1974). Já comprei os dois? Com certeza. Espero comentá-los, por aqui, em breve.

Em um dos textos contidos no livro, publicado originalmente no seu blog em junho de 2011, e intitulado “Não tem que ser do jeito que é” (It Doesn’t Have To Be the Way It Is), Ursula discute como a ficção possui um caráter subversivo e como os totalitarismos costumam ter horror e aversão à fantasia.

Ela afirma ser difícil imaginar que alguém que goste de ciência não goste de fantasia. Afinal, “ambas baseiam-se muito profundamente na admissão da incerteza, na aceitação acolhedora de perguntas não respondidas” (p.115).

Concordo com ela e comecei a pensar que talvez eu goste mais de ficção do que eu me lembrava.

Outro dia, por exemplo, maratonei a primeira temporada de “O Problema dos 3 Corpos“, no Netflix, baseada na trilogia Lembranças do Passado da Terra (O Problema dos Três Corpos, A Floresta Sombria e O Fim da Morte) de Liu Cixin. É uma série sobre ciência, leis da física e outras coisas mais. Gostei e fiquei com vontade de ler os livros. Se você leu os livros e achou a série uma porcaria, me conta.

Mas voltemos à fantasia e à Ursula.

Diferente do sonho, que é livre de controle intelectual e admite narrativas irracionais e instáveis – e não tem compromisso com a estética -, Ursula afirma que a literatura fantástica “deve satisfazer tanto a faculdade intelectual quanto a estética”.

A autora completa: “A fantasia, por mais estranho que soe dizê-lo, é um empreendimento perfeitamente racional” (p.114).

Nesse sentido, a fantasia não desconsidera a realidade. Tem ela como base, mas admite que a nossa percepção ou interpretação da realidade pode estar incompleta, equivocada ou ser limitada.

Portanto, fantasiar, seja mundos, vidas ou histórias, é pensar que, na base, as coisas são como têm que ser, mas que acima da base, nada tem de ser do jeito que é. Já pensou como isso se aplica à nossa própria vida e às nossas estruturas de repetição?

Em outros textos, a autora aborda temas sociais, políticos e econômicos – assim como temas mais amenos, como os hábitos do seu gato – e se vale do argumento acima para reforçar a ideia de que “o que é” não precisaria, necessariamente, “ser”. Algumas coisas simplesmente são, de fato. Outras muitas, não precisariam ser.

Ursula K. Le Guin

Seja a nível global, local ou pessoal, me identifico muito com essa perspectiva e venho percebendo como abandonei, aos poucos, o meu hábito de imaginar e fantasiar. Novas vidas, novos hábitos, novos cenários, novas perspectivas. E, porque não, novos textos e gêneros textuais?

Ah, a nossa querida Aline Valek listou a Ursula como uma de suas influências e falou um pouco sobre nesse texto aqui.

Aproveito para resgatar uma bela citação da Ursula trazida por ela:

Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte — a arte da palavra. (Ursula K. Le Guin)

E como bem disse a Aline Valek : “Os nossos sonhos podem moldar a realidade”.

Esse texto foi pra descobrir que eu tinha isso a dizer. Um abraço!


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