Greve, medo e fragmentação dos coletivos de trabalho

Se manter sempre passivo em uma relação de trabalho naturalmente marcada pelo binômio dominador-dominado, é acreditar que uma raposa a cargo de um galinheiro, sempre saberá o que é melhor para as galinhas.

No dia 26 de fevereiro de 2018 – segunda-feira, foi deflagrada uma greve dos servidores administrativos e técnicos do sistema prisional e socioeducativo de Minas Gerais. Esses trabalhadores são auxiliares administrativos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, analistas técnicos jurídicos, pedagogos, entre outros responsáveis diretamente pela ressocialização dos indivíduos privados de liberdade ou pela recuperação/reeducação dos adolescentes em conflito com a lei. Esse grupo de trabalhadores corresponde a cerca de 4 mil servidores estaduais.

Para quem não sabe, eu sou um desses trabalhadores e, por ocasião da greve, que na data de postagem deste texto já dura mais de 20 dias – e também pelos meus interesses de estudo na Psicologia, não pude deixar de fazer uma série de reflexões sobre os fenômenos que observei, e ainda venho observando.

O que a categoria reivindica? Essa é a pergunta chave de todo movimento de greve. No caso desse grupo, reivindica-se o cumprimento de um acordo salarial estabelecido com o Estado no ano de 2015, o qual consistia basicamente na equiparação dos salários desses servidores aos demais profissionais da área de segurança pública.

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Não entrarei em detalhes. Basta dizer que esse acordo – até o momento – não foi cumprido, assim como não houve nenhum reajuste salarial ou decisão que indicasse o seu possível cumprimento. É por isso que esses servidores paralisaram as suas atividades e foram às ruas.

Aos que não estão habituados a esse fenômeno, é necessário dizer que a greve, ou seja, a suspensão da prestação de serviços, de forma parcial ou total, costuma ser uma espécie de último recurso encontrado por um determinado grupo de trabalhadores para sinalizar a necessidade de diálogo e acordo com a figura do patrão. A greve é um direito constitucional do trabalhador, ou seja, um comportamento garantido pela Constituição Federal de 1988.

A greve costuma ser comunicada e levada à cabo por uma organização sindical que representa a categoria. Enquanto instituição, o sindicato oficializa, orienta, negocia e acompanha todo o processo de paralisação, assim como os impactos e adesão ao movimento por parte dos interessados, sendo o porta-voz de um coletivo de trabalhadores. A greve costuma ser utilizada quando sente-se uma injustiça está sendo cometida e a categoria percebe-se prejudicada na relação de trabalho estabelecida com o empregador.

Então porque não observo adesão e apoio total dos trabalhadores no caso dos servidores técnicos e administrativos do sistema prisional e socioeducativo de Minas Gerais? Foi a partir dessa percepção e de reflexões próprias a respeito desse momento de greve, que resolvi escrever essa análise.

Medo e acomodação 

Primeiramente, há o medo como impedimento, um pouco misturado com acomodação. A angústia provocada por deixar a zona de conforto do posto de trabalho e de toda a rotina estabelecida, e então ingressar em um movimento desconhecido e imprevisível, é um elemento comum observado na resistência dos trabalhadores a aderirem. Ou seja, iniciada a greve, essa parcela dos servidores permanece trabalhando, e apenas aguardam algum desfecho positivo.

Algumas coisas justificam isso: medo de perder a posição atual – no Estado existem “cargos políticos”, que não só garantem um acréscimo salarial, como um ganho de status, ainda que ambos provisórios; medo de sofrer alguma retaliação; medo de ter alguma perda salarial; medo de ser avaliado negativamente pela chefia e pelos colegas; medo de perder o emprego – o que não se aplica tanto aos servidores concursados, já que a estabilidade garantida pelo serviço público impede que isso aconteça por uma simples adesão a uma greve; dentre outros motivos.

O egoísmo não poderia ficar de fora. Há muito individualismo, é inegável. Segue-se a lógica da representação, do grupo de pessoas ou do líder que resolverá a minha vida no meu lugar, já que não acho que preciso tomá-la em minhas próprias mãos. É uma grande ilusão, mas acaba servindo para uma boa parcela das pessoas. O que acaba sendo ainda mais reforçado quando os benefícios chegam sem que eu tenha precisado me deslocar ou me prejudicar para chegar até eles. Pessoalmente, resolvi tomar a minha reivindicação em minhas próprias mãos, e arcar com o custo desta decisão.

Poder e fragmentação

Em segundo lugar, há o poder instituído – nesse caso, o Estado – que atua com todas as ferramentas que possui. Quem tem o poder, normalmente procura mantê-lo e, para isso, utiliza de algumas estratégias.

O desconhecimento é uma delas. Informações falsas ou controversas, boatos ameaçadores, ausência de fontes confiáveis e de transparências nas condutas, e discordâncias quanto às garantias trazidas pelos sindicatos são alguns exemplos.

Quando estamos de greve, a “rádio peão”, como costumamos chamar aquela rede informal de notícias em uma empresa, age freneticamente, tanto para o bem, como para o mal. Ouvimos tudo o que possa nos fazer esmorecer, ficar com medo e voltar logo para o trabalho, assumindo aquela posição de dominado obediente, tão desejada por quem detém o poder. É a sua força vertical agindo.

Assédio moral? Também, claro. Afinal, esse é o nome correto para darmos a ameaças veladas de chefes aos seus subordinados, em suas mais diversas formas. Pode ser algo bem simples, como: “se você entrar nessa greve, pode esquecer aquelas férias programadas para dezembro” ou “você vai aderir? mas o serviço não pode parar! vou ter que reportar isso ao meu supervisor”. Imagina só? Ir contra tudo isso e apoiar um movimento extremo como uma greve é complicado para as tramas da nossa mente, muito acostumada a se preocupar apenas com o nosso próprio umbigo.

Quanto a isso, novamente o poder instituído entra com instrumentos fortes para fragmentar o coletivo de trabalho, fundamental para qualquer movimento de resistência e reivindicação. Ninguém conseguiu nada sozinho até hoje. Basta olhar a história da civilização.

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Fonte: Malika Frave

Ora, no Estado, por exemplo, temos vínculos empregatícios variados, o que faz com que as pessoas se identifiquem menos umas com as outras, possuam condições salariais distintas, atribuições e responsabilidades controversas. Além disso, o sentimento de pertencer a determinado grupo se enfraquece.

No Estado, por exemplo, temos: o contrato temporário – onde não há carteira assinada, apenas um contrato de trabalho com tempo determinado de duração e com poucas garantias para o novo funcionário, dessa forma, tem sempre gente entrando e saindo.

O cargo de confiança – o famoso cargo político por indicação, de livre nomeação, ou seja, aquele chefe te conhece ou alguém pediu a ele que te desse um emprego, e lá você está, por ‘x’ motivos. Este, então, é ainda mais transitório e geralmente se encontra no patamar de gestores, o que colabora para que diretrizes distintas sejam trazidas e abandonadas com certa frequência. São os falados “ventos políticos”;

Os estagiários – esses, fundamentalmente, transitórios; os terceirizados – aqueles que pertencem a uma empresa distinta, mas prestam serviço em uma repartição da administração pública; e, por fim, os servidores concursados, aqueles que prestaram concurso público e conquistaram uma vaga no poder público.

Temos então, basicamente, cinco naturezas distintas do trabalho formal. Entre elas, acredite, existem divergências, conflitos e afinidades. Ora, se não houver intriga, fofoca, inveja, vingança, amor e ódio, não estamos lidando com um ambiente de trabalho onde convivem seres humanos. Nesse caso, vínculo de trabalho se coloca como o fator chave. E o poder se aproveita disso, claro.

“Em política e sociologia, dividir para conquistar (ou dividir para reinar), consiste em ganhar o controle de um lugar através da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo que se mantenham individualmente. O conceito refere-se a uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem”. Fonte: Wikipedia.

Além do óbvio conflito que a própria fragmentação já traz, apenas uma dessas naturezas possui uma espécie de ‘estabilidade’ que pode transpor o receio da perda do emprego e se unir em forma de resistência para ir contra e revidar o poder instituído: os servidores concursados.

Ou seja, todos os outros vínculos podem ser caracterizados como precários – podem ser extintos a qualquer momento pelo Estado – o que faz com que os seus membros busquem apenas manter aquilo que já conquistaram. Sem grandes ousadias ou questionamentos, afinal, não querem perder o emprego, nem aquele lugarzinho ao sol.

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Fonte: Andrea Ucini

A essa altura você pode estar pensando: então se todos os servidores concursados não podem ser mandados embora facilmente, todos vão aderir a uma greve que busca alguma melhoria para eles, né? É aí que você se engana. Afinal, lembra do medo? Lembra do desconhecimento? Lembra das tramas da nossa mente? Lembra do “fragmentar para reinar”?

Outro fator se soma aos descritos anteriormente, e talvez seja um dos mais visíveis e compreensíveis: a distância territorial. Para quem não sabe, o estado de Minas Gerais é imenso. É só dar uma olhada no Google. E, para piorar – ou melhorar, depende do ponto de vista – temos presídios, centros socioeducativos e unidades afins à segurança pública em todo o território mineiro. Dessa forma, não somos quatro mil trabalhadores unidos em um mesmo local físico. Pelo contrário, somos quatro mil divididos em mais de 200 localidades.

E então?

Todos esses aspectos podem agir a favor dos trabalhadores em um movimento de resistência e reivindicação como uma greve, mas também podem ser elementos dificultadores quando lidamos com todos os outros pontos citados: o medo, o desconhecimento, a ameaça, a fragmentação e, claro, o fator humano.

Dessa forma, o movimento de greve é um movimento muito frutífero em análises, principalmente na perspectiva da psicologia do trabalho. Vemos como as instituições agem sobre os trabalhadores, como o coletivo atua como mediador da resistência individual e como os indivíduos que compõem o coletivo diretamente envolvido na paralisação cria rumos imprevisíveis em uma constante troca dialógica.

Pessoalmente, redescobri coisas muito importantes no processo de greve: solidariedade e empatia são apenas duas. O nosso real respeito pela democracia também é colocado em xeque, assim como a obediência excessiva às normas instituídas e o apego ‘cego’ ao poder que age verticalmente sobre nós.

Em muitos momentos, esquecemos de pensar por nós mesmos, de confiar em nossos colegas de trabalho, de compartilhar, discutir e dialogar com os nossos pares. Esquecemos de fortalecer os nossos coletivos de trabalho, fundamentais para que possamos desenvolver as nossas próprias atividades. No mundo de quedas de braços em que vivemos, é preciso entender o nosso lugar e reivindicar mudanças, se queremos que a relação de poder trabalhador-empregado não se torne apenas uma via única de dominação.

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