O acachapante efeito do serviço público: notas da inércia

Não posso generalizar, mas digo, com alguma certeza, que o funcionalismo público no Brasil é um monstro fora de controle e que precisa ser domesticado ou abatido. É um monstro desgovernado – paradoxalmente -, habitado por diversos parasitas, em uma relação digna de uma aula de biologia.

Você deve ter ficado curioso por causa do título. ‘Acachapante’ é algo esmagador, irrefutável e indiscutível. ‘Inércia’ é substantivo feminino que pode configurar um estado de abatimento caracterizado pela ausência de reação. Apatia, prostração, abatimento. Temos um efeito que esmaga, impõe o seu limite e produz inércia.

Não pesquisei nada para começar este texto, apenas a minha cabeça. Tomei posse – como dizem no serviço público – em agosto de 2010. Dessa forma, tenho 07 anos completos e alguns meses de experiência neste universo. Continuo nele. Então, qual o motivo de dissertar sobre a sequela aflitiva do funcionalismo público? Bom, é algo que – ainda – não posso provar por meio de uma pesquisa científica, mas posso dizer, com algum grau de veracidade, que existe.

Voltemos ao monstro. Ele tem vida própria. É característica das instituições. E caminha. Qual o rumo, não sabemos, mas caminha. A seu lombo, braços, pernas e ombros se agarram minúsculos humanóides. Olhe bem de perto. São muitos. O monstro possui três cabeças: a executiva, a legislativa e a judiciária. De tamanhos diferentes, se debatem. Um único corpo inchado.

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Ilustração: Tom Gauld

Ora esmagadas, ora surpresas, ora devotadas, incólumes criaturinhas o rodeiam. E vivem. Despreocupadas. Não sabem o quanto se comprometem, são manipuladas, guiadas, controladas, só querem que o monstro lhes mostre o caminho e garanta sua existência.

Abandono as metáforas. É unânime. Pergunte a um funcionário público. Temos pessoas que não fazem nada o dia inteiro. Temos pessoas que fingem fazer. Temos pessoas que fazem. Temos pessoas pagas para fiscalizar o ‘fazer’ e o ‘não fazer’. Temos pessoas que gostariam de fazer muito, mas não podem. Não conseguem. É sobre elas este texto.

Nos últimos meses observo, com alguma tristeza, a saída de alguns trabalhadores do funcionalismo público. Em um gesto de ‘jogar a toalha’, pessoas com bons salários – ou mesmo na categoria ‘nem tão ruim’ -, com emprego garantido para o resto de suas vidas e com pouco trabalho a ser feito ‘saem de cena’. Essa saída é física ou mental, não importa. Podemos estar presentes e ausentes, ao mesmo tempo.

Yves Clot, um psicólogo francês, fala sobre o trabalho bloqueado, impedido. Tudo aquilo que não é feito, não foi feito, poderia ter sido, gostaria que fosse e por aí vai. É a inércia imposta, a apatia acachapante que desgasta. Não poder trabalhar como se deseja, em conjunto com os outros, no livre ‘se deparar’ com a realidade.

“O sofrimento não resulta apenas da atividade realizada, mas também da atividade que não pôde ser feita, ou que foi feita no lugar de outra. Isso quer dizer que a atividade cumprida não possui o monopólio do real. Portanto, o desgaste no trabalho está ligado ao que o trabalhador não pôde fazer, e que gostaria, e àquilo que ele é ‘obrigado’ a fazer, muitas vezes de forma automática” (BENDASSOLLI, 2011, p.85).

É o rolo compressor que normaliza, cansa o corpo, a mente e a alma. O funcionalismo público tem a estranha habilidade de padronizar a mediocridade. Não se trata de achar culpados. Não existem culpados. Somos todos. Seria uma busca vã. O monstro é rizoma. Não se acha início, meio e fim. São raízes difusas, ligações desconexas, imperceptíveis. Mas ele existe. Não procure, você não achará o ‘marco zero’.

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Ilustração: Tom Gauld

A estabilidade proporcionada pelo serviço público não é, por si só, paralisante. Não a julguemos precipitadamente. Altos salários? Nem todos o são, é melhor pesquisar um pouco mais. Pouco trabalho? Nem tanto, é impossível generalizar. Digo, possível é, mas não seria prudente. O que está errado então?

Em artigo de Bruno Lupion para o Nexo, o próprio conceito de estabilidade é discutido, uma vez que, em tempos de crise econômica, os cortes no serviço público são extremamente limitados e a improdutividade de alguns trabalhadores fica ainda mais exposta. Como diz Bruno, para demitir um servidor público, federal, estadual ou municipal, é necessário um processo disciplinar ou administrativo, algo que pouco ocorre na prática. Não é mito. O clássico funcionário público que ‘não faz nada’ existe.

O recente relatório do Banco Mundial (21/11/2017) sobre a economia brasileira trouxe algumas questões críticas para discussão. Independente de concordarmos ou não com ele, algumas informações são muito relevantes, afinal a forma como gastamos o nosso dinheiro público vem contribuindo para perpetuarmos a desigualdade social:

“Outra grande área de despesa do governo federal é a folha salarial dos servidores, em 2016 perto de 3% do PIB.  Uma análise dos níveis de salário indica que o governo federal paga muito acima do necessário para atrair recursos humanos de alta qualidade: o gap entre os salários do setor privado e do público é de 67%, algo atípico para padrões internacionais. Essa alta diferença impacta não apenas na eficiência do gasto público, mas também contribui para a perpetuação da desigualdade social no País. Como os salários dos servidores públicos são financiados por meio de tributação, que no Brasil não é muito progressiva, os altos salários do setor público constituem uma forma de redistribuição de renda dos mais pobres e da classe média aos mais ricos” (The World Bank).

Essa informação só há de confirmar a nossa imagem de um monstro desgovernado, inchado, coberto por parasitas. Ele já está por aí há muitos anos. Chegamos depois. A máquina pública caminha e permanece, e independe de nossa vontade. Mas, é possível torná-la mais eficiente? É possível fazer com que os interesses comuns sejam atendidos? Que o serviço público deixe de ser alvo de crítica e uma eterna mazela?

Não é segredo que muitos buscam no serviço público o tão sonhado paraíso. O salário na conta, a certeza no espírito e a paz no coração das poucas atribuições, dos muitos feriados, recessos e reduzidas importunações. Já existe uma indústria para isso, de cursos preparatórios, vidas dedicadas à conquista da segurança.

Mais uma vez, não vamos generalizar. Falar que todos os funcionários públicos são grandes preguiçosos conquistadores do dinheiro fácil seria uma falácia. Seria cair no binarismo do ‘isso’ ou ‘aquilo’, do ‘sim’ ou do ‘não’. É uma e outra coisa ao mesmo tempo. O serviço público funciona e não funciona. É bom e ruim.

Se você é pesquisador e se interessa por esse tema, busque responder algumas perguntas:

  • Porque o setor público é tão mal gerenciado no Brasil?
  • O que acontece às pessoas que ‘desistem’ de trabalhar?
  • A má gestão e a apatia de muitos dos seus integrantes é algo comum a serviços públicos ao redor do mundo?
  • Será nossa natureza ‘colonizada’ e ‘escravocrata’ a raiz do problema? É possível encontrar uma raiz?
  • Deveríamos acabar com a estabilidade? Acabar com o serviço público?

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Não chego a nenhuma conclusão neste texto, mas afirmo que a falta de metas, de transparência, de critérios claros que avaliem o desempenho dos trabalhadores e a incompetência de muitos gestores espalhados por aí, vem produzindo um efeito ‘acachapante’ sobre muitos trabalhadores. Que esmaga, normaliza, comprime e nivela por baixo.

Como um vampiro, a atual organização do trabalho público, muitas vezes, suga a energia de seus melhores profissionais, colaborando para que o atual ritmo de tartaruga e os velhos problemas perpetuem. São algumas notas sobre a inércia. Como sair dela?

 

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2 Respostas para “O acachapante efeito do serviço público: notas da inércia

  1. Trabalhei numa estatal por 30 anos e a diferença era pouca. Infelizmente, sinto que nada mudou. O que mais me deprimia era a falta de entusiasmo da maioria das pessoas. Não tinham ânimo porque sabiam que não precisavam lutar para permanecer no mesmo lugar. Aqueles que saíam deste circulo vicioso eram agraciados com promoções, como se tivessem feito trabalhos maravilhosos… não era bem isto! Sempre fui entusiasmada pelo trabalho, pela produção e isto, muitas vezes me serviu como punição. Em resumo, não é fácil lidar com tudo isto. Tentei fazer o meu melhor, já que não tinha a mínima chance de tentar mudar algo no sistema.

    Curtido por 1 pessoa

    • É realmente uma relação de trabalho muito confusa, onde produzir e trabalhar bem, muitas vezes é confundido com chatice, e a iniciativa por mudanças é vista de forma negativa por gestores e colegas. Eu e uma colega estamos escrevendo um artigo sobre isso. Espero postar em breve.

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