Encontros, desencontros e encontros

Era só mais um sábado e a programação provável seria um dia de séries ou filmes, cochilos e comida pronta. Mas, existem dias que parecem estar escritos de antemão e uma mistura de destino e coincidência resolve dar as caras. Foi assim no dia oito de julho, um daqueles dias em que os escudos são deixados de lado e resolvemos fazer uma escolha sem pensar tanto. A família estava prestes a aumentar e nem desconfiávamos.

Decidimos ir a um festival de cerveja e gastronomia. Eu, a esposa e a cachorrinha, não que a última tenha participado muito do debate. Toma banho, veste roupa, coloca a coleira, pede o táxi e lá vamos nós, curtir um dia de sol ao ar livre. Chegamos. Já munidos de uma boa cerveja artesanal, providenciamos uma água para a cachorrinha. E comida também. Ela não está muito interessada, afinal, tem muito mais acontecendo ao redor.

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Por todos os lados, tendas de comidas e cervejas, pais com os seus filhos, outros cachorros circulando, um playground, música, sol e grama. Pouco abaixo de onde sentamos, uma barraca com cães para adoção, de diversos tamanhos, cores e temperamentos. A esposa não resiste e vai dar uma olhada nos animais. Digo que olhe mesmo, quem sabe, e vou ao banheiro. Ao retornar, – olha essa que bonitinha, não é muito grande -. Verdade. Parece tranquila também. – Seria bom ter uma companhia para a Lucy (a cachorrinha) -. Seria mesmo. Damos conta? Sim. Queremos mesmo? Sim. Vamos levar? Vamos.

Assina termo de adoção, fica feliz, tira foto, perguntas e respostas sobre a nova integrante da família. Princesa é o nome dela. Estava há três meses no abrigo. Antes vivia na rua. Está castrada e já teve filhotes. Vamos trocar para Martha, em homenagem àquela música dos Beatles – Martha my dear. É pra fazer par com a Lucy in the sky with diamonds. Tipo ebony and ivory.

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Agora que temos um novo cachorro, é melhor irmos embora pra casa. Num braço Lucy, noutro Martha. Pescamos um táxi. No caminho, refletimos sobre o que estamos fazendo. Sim, parece certo. O medo existe mesmo, mas nesse caso faz parte do processo. Martha parece muito dócil. É um pouco assustada. É de se imaginar.

Chegamos em casa. Agora são duas. Lucy não liga. Gosta de outros cachorros. Martha fica estática próxima à entrada do apartamento. Do lado de dentro. Colocamos um cobertor. Ela parece friorenta. Esses dias estão frios mesmo. Aos poucos se desloca para o cobertor. Muito medrosa essa nova habitante da casa. Aos poucos também explora o apartamento, de rabo baixo, hesitante. Come. Toma água. Está tudo bem.

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É domingo, dia nove de julho. Vou assistir a um concerto na parte da manhã. Vou e volto a pé. É revigorante, apesar do medo de ser assaltado. Aqui não conseguimos andar na rua sem pensar nisso. Chego em casa. A esposa, Lucy e Martha estão bem. Harmonia na convivência. Sem grandes transtornos. Parece que vai dar certo. A Martha até faz suas necessidades no tapete higiênico. Tudo certinho, no lugar. Almoçamos.

Vou ao pet shop. Compro uma coleira para a Martha e uma bandana. Volto. A coleira parece um pouco maior do que deveria, mas até que fica boa no corpo. Martha se encolhe toda quando colocamos a coleira. É um suplício. Ouvimos dizer que é bom passear com os dois cachorros para que se conheçam em um ambiente neutro.

Então, vamos ao passeio. Deve ser perto das cinco e descemos os quatro. Lucy animada, como sempre. Martha com medo, precisa ser carregada para sair do apartamento, entrar no elevador e sair do prédio. Vamos mesmo assim. Andamos na rua. Martha começa a se sentir mais à vontade e parece seguir a Lucy no passeio. Líder da matilha. Tem alguns momentos de medo, mas tudo está funcionando bem. Coleira, cachorro, passeio. Tudo certo.

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Estamos voltando. Eu, com Lucy. A esposa, com Martha. Entro no prédio. A esposa vem logo atrás, mas pára na porta do prédio, a que dá acesso à rua. Martha parece ter empacado. Uma puxa de um lado. Outra puxa de outro. Um erro, mas não sabíamos ainda. Martha se contorce e se desprende da coleira. A esposa grita. Martha está solta na rua. Ainda não nos conhece, então não adianta chamar. Não sei o que fazer. Deixo a Lucy solta dentro do prédio, peço que o porteiro olhe, falo para a esposa entrar e ficar com ela.

Saio, começo a chamar a Martha. A rua está movimentada e ela parece assustada. Um ali tentar pegá-la. Outro chama. Ela assusta, escapa, entra no modo de fuga. Corre para um dos lados. Saio correndo atrás. Não é possível que isso está acontecendo. Ela corre. Quanto mais me aproximo, mais ela corre. Cachorro corre muito depressa, eu não lembrava disso. Saio correndo atrás na ilusão de alcançá-la, já a perco de vista. Algumas pessoas viram passar para lá. Para cá. É sua? Está perdida? Caras de dó, preocupação e indiferença, tudo misturado. Não sei onde ela está. Ando, ando e corro. Não a vejo mais.

A esposa me liga. Está em prantos. Digo que vamos encontrá-la, mas me pareceimprovável. Estou de chinelos. Um arrebentou na corrida. Agora estou de pés descalços. Mas continuo correndo e andando. Procurando. Ela não pode estar longe. Resolvo voltar ao prédio. Vamos pegar o carro e vamos rodar por aí. Vamos achá-la. Por que isso está acontecendo?

Rodamos alguns minutos. Ao entrar numa avenida movimentada, vejo Martha andando rapidamente em nossa direção. Estaciono o carro no meio da avenida. Saio. O sinal está fechado. Vai dar pra pegar ela. Vou para um lado do carro, ela vai para outro. Faço que vou pegá-la, mas só a assusto mais. Ela corre, muito, muito depressa. Não vou correr atrás. Volto para o carro. Vamos rodar mais um pouco e tentar ir atrás dela. É a última vez que a vejo.

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Voltamos para casa. Frustrados. Irritados. Inconformados. Estúpidos. Adota cachorro, perde cachorro, em menos de vinte e quatro horas. Quanta irresponsabilidade. São quase nove horas. Avisamos os amigos, parentes, postamos nas redes sociais. Tudo em caixa alta, com exclamações. Sim, estamos desesperados. Ela vai ser atropelada, alguma coisa ruim vai acontecer. Onde está essa cachorra? Como é ruim perder algo de vista e não poder fazer nada a respeito. Alguém a viu numa praça próxima. Voltamos lá. Andamos no escuro, olhando jardins, moitas, cantos e debaixo dos carros. Já são dez e meia desse domingo. Nem sinal da cachorrinha assustada que há poucas horas dormia no cobertor que colocamos pra ela.

Como dormir? Como sossegar a cabeça? Como aceitar uma tragédia dessa? Sim, existem tragédias maiores e menores, mais graves e menos graves, mas essa é sim uma pequena tragédia. Não se adota um cachorro para perdê-lo na rua no dia seguinte. Somos inconsequentes, irresponsáveis. Colocam plaquinha de identificação nela? Não. Ela está de coleira no pescoço? Não. Não há nada que a identifique. É só mais uma vira-lata andando por aí.

Segunda. Terça. Quarta. Algumas pistas, telefonemas, mensagens nas redes sociais. Colamos cartazes na região. Andamos procurando. Não consigo mais andar na rua sem procurá-la. Ali naquele canto, com um morador de rua, ou no jardim daquela praça, debaixo daquele carro? Será que alguém resgatou? Será que foi atropelada? Está perto ou longe? Como entrar na cabeça de um cachorro e saber por onde anda Martha? Não dá. São dias de frustração e esperança.

Não amávamos o cachorro ainda. Nem deu tempo. Mas, entenda, queremos reparar o erro. Crime e castigo, do Dostoievski, já leu? Temos coração. Fomos bem-intencionados e burros ao mesmo tempo. Pouco prevenidos. Inocentes. Afinal, a vida é assim, não é? Se estivéssemos preparados para tudo, nunca seríamos surpreendidos.

Quinta-feira. Treze de julho. Algumas mensagens. Uma cachorrinha parecida com a Martha está num bairro conhecido, que não é perto, nem longe. Alguém viu passando perto de um supermercado. Estou trabalhando. A esposa vai verificar com um amigo. Não encontram nada. As horas passam. Mais gente diz que viu a Martha por ali, naquelas ruas, ruas conhecidas para mim que já morei naquele bairro. Chego do trabalho. São quase sete horas. Vamos, eu, a esposa e a cachorrinha. Lucy nem ganhou uma amiguinha direito e já perdeu, não deve estar entendendo nada. Andamos por algumas ruas daquele bairro, novamente olhando cantos escuros, jardins, praças, moitas. Nada.

Voltamos para casa. Mais um dia sem boas notícias. A esposa está confiante. Brinca que “coração de mãe sabe”. Talvez saiba mesmo, ainda que mãe de cachorro possa soar peculiar para muitos. Estou incrédulo. Desconfiado. Não crio expectativas. Começo a pensar que não acharemos a Martha. Como localizar um vira-lata sem identificação alguma numa cidade grande como a nossa? Por outro lado, as pistas estão surgindo e as redes sociais trabalham em ritmo frenético. A rede de solidariedade que envolve a busca por cachorros perdidos é inacreditável. Ninguém recebe por isso. Parece ser apenas amor aos bichos. Solidariedade e compaixão puras, em seu estado natural.

São dez horas. Uma ligação. Acharam a Martha. Ela está na frente de um prédio, naquele bairro mesmo que visitamos mais cedo. – Peguem ela, por favor. Estamos indo agora. Mandem fotos também, para ver se é ela mesmo. Sigo incrédulo, pode ser qualquer cachorro meio bege. Mas a esposa está transbordando de felicidade. Cabe a mim jogar os baldes de água fria. Pode não ser ela, não fique tão esperançosa, o tombo será muito grande. Frieza. Pés no chão. Estamos tomando um vinho para afogar as mágoas e não podemos dirigir. Ligamos para uma amiga que se prontifica a nos levar até lá. Mensagem daqui, mensagem de lá. Foto com qualidade ruim, será que é ela mesmo? Parece ser.

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No carro, no caminho, pessoas dizem ter um visto uma cachorrinha muito parecida também naquele bairro, mas ela está andando em outra rua, perto de um restaurante. Nossa, será que as pessoas de antes tentaram pegar a Martha e ela fugiu? Não é possível, parecia tão perto de dar certo. Mensagens, fotos. Não é a nossa cachorrinha que está perto do restaurante. Aquela está grávida e é mais escura. Não é a Martha. As pessoas de antes dizem que a Martha está segura com eles e podemos ficar tranquilos.

São longos minutos até chegarmos ao endereço. Parece uma eternidade, como dizem por aí. Se for ela mesmo, vai ser cena de filme. Não é possível. Não acredito que isso está acontecendo. Quem adota um cachorro, perde o cachorro e encontra o cachorro em menos de uma semana? Nós. Prazer. Chegamos. A filha nos recebe. Outros dois cachorrinhos circulam já dentro do prédio. É o apartamento do térreo. Tem um coelho também. Lucy já se aventura e convive com os novos colegas.

No colo da mãe, enrolada num cobertor, Martha. Sim, é ela. Aquela carinha não engana. A ponta do rabo fininha e pretinha também não. Pequenos sinais que a diferenciam. Não acredito que achamos. Que pessoas boas são essas que cuidaram dela? Ela estava lá na região há três dias. Como andou. Andou demais. Nunca imaginamos. Nesses dias comeu até linguiça. Não temos como agradecer às pessoas que cuidaram dela. Dizemos as palavras básicas, abraçamos e saímos muito felizes. Lucy na coleira. Martha no cobertor e no colo. A esposa em prantos, de novo. As duas amigas também muito felizes por fazer parte daquele momento. Cena de filme. Se contar, ninguém acredita. Mas aconteceu.

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Martha e Lucy são amigas, como queríamos no princípio. Compramos uma coleira reforçada. Plaquinhas de identificação foram providenciadas. Estamos cautelosos. Tudo deu certo. A boa intenção foi válida. Reparamos nosso erro. Aprendemos. Nos desesperamos e duvidamos do sentido das coisas que acontecem conosco, mas não dá pra entender tudo mesmo.

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Agora, Martha dorme no sofá à minha frente. Lucy no chão, enroscada. A família aumentou. Foi assim que a Martha entrou em nossas vidas.

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