Memória: III Colóquio Internacional de Clínica da Atividade

O primeiro Colóquio Internacional de Clínica da Atividade aconteceu em 2010 na Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), Minas Gerais. Nessa época, estava finalizando minha especialização em Psicodrama no Instituto Mineiro de Psicodrama Jacob Levy Moreno em BH e iniciando minha trajetória na Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais. Ainda não havia me detido na questão do adoecimento no trabalho e na importância da análise da atividade, principalmente em meu próprio campo de atuação.

Em 2013 foi realizado o segundo Colóquio em Natal, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O evento prosseguia com o seu objetivo de desenvolver conexões entre pesquisadores brasileiros e franceses e avaliar as ramificações da Clínica da Atividade no Brasil. Nesse mesmo período, começava pessoalmente a refletir sobre meu interesse em iniciar um Mestrado e realizar pesquisas no campo da Saúde Mental e Trabalho.

Hoje, em 2016, tive a excelente oportunidade de participar do terceiro Colóquio, realizado na Universidade de São Paulo (USP) entre os dias 19 e 21/10. Essa participação não poderia ser melhor e mais adequada ao momento em que vivo. Considero que dois fatores contribuem para isso: estar no fim do primeiro ano do Mestrado na PUC Minas e ter me engajado em estudar as Clínicas do Trabalho nos últimos anos.

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Além disso, tive a oportunidade de contribuir ativamente com o evento apresentando um Pôster sobre minha pesquisa de Mestrado. Como forma de refletir esse aproveitamento e produzir diálogos, escrevo esta memória.

III CICA | Primeiro Dia | 19/10:

É fenomenal ver o que tem sido produzido, os campos de pesquisa, as interlocuções teóricas e as práticas diversas que se mobilizam em torno da Clínica da Atividade.

Na parte da manhã, tivemos mesas de abertura com a participação do Prof. Yves Clot – CNAM (Conservatoire national des arts et métiers), principal representante da abordagem, e discussões sobre novas perspectivas de análise e transformação das situações de trabalho. A presença de pesquisadores como Claudia Osório (UFF), Jorge Falcão (UFRN), Leny Sato (USP) e Ana Luiza Smolka (Unicamp) enriqueceram o diálogo.

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Clot introduziu o conceito de cooperação conflitual, termo paradoxal que configura um cenário de conflitualidade necessária para o estabelecimento do diálogo e da controvérsia para a transformação da atividade e da situação de trabalho. Para o pesquisador, a discussão sobre o trabalho bem feito e os seus critérios cria o conflito que quebra o monólogo do pensamento. O centro da Clínica da Atividade está na regeneração e fundação do coletivo de trabalho. Trata-se de estabelecer uma performance dialógica para chegar a algo que não havia sido pensado antes.

Devemos buscar ainda multiplicar as vidas possíveis e os afetos, situações que ultrapassam e transbordam o sujeito, restituindo a cooperação conflituosa, a discussão sobre o trabalho bem feito e o desenvolvimento da atividade. Não podemos, enquanto clínicos e trabalhadores, nos reduzir ao que já vivenciamos e ao que já nos afetou, e sim buscar o inesperado.

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No início da tarde, debatemos em uma mesa redonda perspectivas que enfatizam a análise da linguagem e do diálogo como dispositivos de intervenção, com participação da Professora Katia Kostulski do CNAM, em Paris. Para mim foi uma grande novidade conhecer a interlocução da Clínica da Atividade com o campo da Linguística e da Educação, muito além da Psicologia. A conexão parece se apoiar principalmente em autores como Vygotsky e Bakhtin, no entanto preciso conhecer melhor essas perspectivas.

Um breve relato de Katia Kostulski sobre uma intervenção com juízes de instrução na França mostrou as dificuldades de se intervir na realidade, mas também possibilidades de criação de instrumentos que permitam mobilizar a análise da atividade em diferentes contextos.

Observa-se a diferença contextual entre França e Brasil no que diz respeito ao surgimento de demandas para o clínico da atividade. Na França, parece existir maior abertura para demandas de intervenção nas empresas e órgãos públicos, com encomendas direcionadas ao Psicólogo do Trabalho, mesmo que principalmente em momentos de crise. Já no Brasil, percebe-se a predominância de pesquisas científica nessa área como pontapé inicial da intervenção.

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Para fechar o dia, o simpósio “Clínica da Atividade e Filosofia da Diferença” trouxe uma série de interlocuções da abordagem clínica do trabalho com os conceitos de Deleuze e Guattari, como: macro e micropolítica, formas e forças, agenciamentos e dimensões moleculares. Para quem conhece o campo da Esquizoanálise, é muito interessante observar as possíveis apropriações teóricas e o potencial de conexão que possuem. Concluímos que devemos multiplicar as forças mais do que as formas e inspirar um movimento crítico-criativo.

Conhecemos o trabalho de pesquisadores como Fernanda Amador (UFRGS), Jésio Zamboni (UFES), José Mário Neves (UFRGS) e Maria Elizabeth Barros de Barros (UFES).

III CICA | Segundo Dia | 20/10:

Dia de apresentar o meu projeto de pesquisa do Mestrado na forma de um pôster, tornando assim social o que até então eram apenas conjecturas orientando-orientador e esboço de uma intervenção.

A apresentação de pôsteres no fim da tarde contou com diversas pesquisas de diferentes lugares do país e temas como: a atividade de cuidadores de idosos, o trabalho de uma diretora de escola, o ofício de agentes comunitárias de saúde, policiais militares, professores. A Clínica da Atividade vem sendo utilizada e apropriada em diversos campos e a diversidade de temas e dispositivos apresentados mostra isso.

Tive a oportunidade de conversar sobre a pesquisa com o professor Yvon Miossec (CNAM) que se interessou pelo campo de pesquisa e fez algumas sugestões muito positivas. Tudo isso com a ajuda de uma intérprete, claro.

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Na parte da manhã tivemos contato com exposições sobre a questão dos afetos na situação de trabalho e as possibilidades de analisarmos o comportamento como interação entre o organismo e o meio. Além disso, pesquisadores apresentaram resultados da aplicação de diferentes métodos e instrumentos, todos eles buscando a construção do coletivo de trabalho e o diálogo sobre a atividade. O comportamento é uma luta que não cessa por um único instante. O pensamento dialético torna-se fundamental em Clínica da Atividade.

Yvon Miossec (CNAM) ressalta que a inteligência prática dos trabalhadores deve ser levada em conta na tomada de decisão nas organizações, que a voz dos trabalhadores produza efeitos, mudanças na organização do trabalho.

À tarde, antes que passássemos para a sessão de pôsteres, Daniel Faïta (Université de Provence), conhecido pesquisador da Clínica da Atividade e um dos responsáveis pela introdução dos estudos no Brasil, estimulou a discussão sobre a postura do clínico na condução das intervenções, questionando os conceitos de análise e interpretação. A discussão de resultados de outras pesquisas que utilizaram as técnicas de instrução ao sósia e autoconfrontação (simples e cruzada) permitiu uma conversa muito interessante.

III CICA | Terceiro Dia | 21/10:

Começamos esse importante dia de encerramento com um simpósio sobre o trabalho precário, o esvaziamento de sentido da atividade e a criatividade. O professor Jorge Falcão (UFRN) apresentou uma proposta de revisão/refinamento do conceito de “trabalho sujo”, abordado por alguns autores como atividade indesejável e moralmente desvalorizada. O pesquisador propõe a dimensão da inserção em um coletivo de trabalho como critério para evidenciar o trabalho sujo. O isolamento social passa a ser fundamental para essa análise.

Em seguida, o professor Cleverson Almeida (Univ. Presbiteriana Mackenzie) nos mostrou um cenário de precarização do trabalho docente nas graduações à distância, cada vez mais comuns na atualidade. Encerrando o simpósio, o Prof. José Newton (PUC Minas) abordou a importância de compreendermos a noção de criatividade além do senso comum, ou seja, observá-la em cada atividade humana e atentar para a emergência de um sujeito na passagem do trabalho prescrito ao real.

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Na parte da tarde, iniciamos as discussões de encerramento do Colóquio, avaliando a memória do passado e a memória do futuro. As professoras Beth Antunes Lima (UFMG) e Ana Luiza Smolka (Unicamp) ficaram com a tarefa de iniciar a roda de conversa e estabelecer o diálogo sobre este terceiro evento sobre a abordagem no Brasil. A colaboração com os colegas franceses do CNAM tem sido fundamental no desenvolvimento e apropriação da essência desta perspectiva em nosso contexto político e social.

Essas foram apenas algumas anotações a partir da minha participação no III CICA, um evento que fez toda a diferença na minha formação e com certeza ainda fará muito mais com o tempo. Além de todo o conteúdo teórico e assuntos acadêmicos, é bacana conhecer uma das maiores universidades do país e ter contato com pesquisadores de diferentes localidades.

A desestabilização em nossos modos de ser tradicionais é fundamental para que possamos quebrar a rotina e fazer novas conexões no pensamentos e nas formas de agir.

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