Mulheres e o trabalho dentro e fora de casa

Recentemente fui convidado a conduzir uma atividade em grupo com o tema “Mulher, trabalho, família e sobrecarga” em uma instituição aqui em Belo Horizonte. Confesso que a primeira coisa que me veio à mente foi “eu não sei nada sobre isso” e, logo, pensei duas vezes antes de aceitar a missão. Bom, passado o susto espontâneo com o tema, topei o desafio e procurei humildemente ler um pouco mais sobre o assunto. Concluí que talvez saiba mais sobre isso do que imagino.

Primeiramente, fiz uma breve reflexão sobre minha própria realidade e cheguei a algumas conclusões interessantes.

De minha realidade pessoal e familiar, praticamente todas as mulheres – mãe, namorada, tias e primas – trabalham fora de casa, em empregos formais. A maioria inclusive trabalha desde que se entende por gente. Já em meu ambiente de trabalho, é curioso pensar que em uma equipe de quinze pessoas, eu e um colega somos os únicos homens, convivendo com treze mulheres. Na faculdade de Psicologia não foi diferente, muitas mulheres, poucos homens. Sim, elas estão por aí e chegaram para valer no mundo do trabalho.

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Pesquisas recentes mostram que, se em 1970 apenas 18% das mulheres brasileiras trabalhavam, em 2007 já alcançávamos a marca de 52,4%, ou seja, mais da metade delas. Hoje, devemos observar um percentual ainda maior.

Em seguida, tentei me colocar no lugar de uma dessas mulheres. Lembrei que, geralmente, todas que conheço não apenas trabalham durante o dia, mas administram as tarefas do lar, os filhos, o marido, as contas, o supermercado, dentre outras amenidades. Concluí que já teria enlouquecido, afinal, mal consigo fazer apenas uma coisa por uma vez, imagine várias.

Voltando aos dados estatísticos, é fácil dizer que, se mais da metade de nossas mulheres hoje trabalham, é possível observar que grande parte delas não abandonou seus papéis tradicionais em nossa cultura – mãe, dona de casa, etc. -, pelo contrário, nossas novas mulheres trabalham em jornada dupla.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que 90,7% das mulheres que trabalham também realizam atividades domésticas. Por outro lado, os homens representam 49,7% do total.

Devido a uma série de fatores históricos, foram atribuídas às mulheres as chamadas “responsabilidades domésticas” e, em algumas culturas, isso mudou pouco ou quase nada. Ainda hoje, muitas representantes do sexo feminino são involuntariamente relegadas ao cuidado com o lar e dos filhos. Optar por isso, é uma coisa. Não ter opção, é outra.

Frases tristemente machistas como “lugar de mulher é na beira do fogão” ainda ressoam por aí e dão, ao trabalho doméstico, assim como à mulher, um valor reduzido, restrito ou quase inexistente.

Infelizmente, ainda é comum encontrarmos pessoas que acreditam que obrigações familiares como cuidar de crianças menores, idosos, cozinhar, limpar a casa e fazer os demais trabalhos domésticos, além de tarefas pouco valorizadas, são atividades tipicamente femininas. Calma, não é bem por aí. Aliás, isso não faz sentido algum. Você homem, por acaso, já se imaginou cuidando de todas as tarefas do lar? Não deve ser mole não.

A inserção da mulher em um espaço que por muito tempo foi dominado pelos homens, fez com que as mulheres assumissem, aos poucos, tanto o trabalho fora de casa como as tarefas domésticas, vivendo uma dupla jornada de trabalho. Entretanto, sua saúde mental e a sua qualidade de vida, parecem ter ficado perdidas nesse meio tempo e o lema não é viver, mas sim sobreviver.

Sabemos que as mulheres não querem mais apenas ser mães e cuidar do lar. Querem também sua independência, seu poder de consumo e sua realização profissional. Além disso, muitas trabalham para complementar o sustento do lar e essa história de que o homem é o provedor da casa já está ultrapassada há bastante tempo.

No entanto, ao mesmo tempo em que nossa sociedade estimula o papel da mulher forte e independente, assim como sua igualdade de direitos, também lhes cobra seu dever de cuidado com os filhos e suas obrigações domésticas, trazendo assim uma demanda injusta. “Você pode trabalhar fora, mas não esqueça dos seus filhos” diz o marido. A esposa, surpresa, responde: – Seus? Não seriam os nossos?

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“E a divisão de tarefas do casal?”, você deve estar se perguntando ainda. “Que homem egoísta e folgado” pensou outra leitora mais alerta. O homem não deveria ajudar mais? Claro. Entretanto, pesquisas apontam claramente a diferença da dedicação feminina e masculina às tarefas domésticas. Homens gastam, em média, 10,3 horas por semana com obrigações dessa natureza. Já as mulheres, gastam 26 horas por semana.

Como dar conta de tudo? Percebo que, além dos demais fatores envolvidos em um processo de adoecimento no trabalho, como a organização do trabalho, a competitividade, a pressão e o estresse mental ou físico, questões relacionadas à identidade e ao seu papel na sociedade impactam especialmente as mulheres.

Parece não haver um roteiro pronto. Como afirmam França e Schimanski (2009), o trabalho é uma das maiores conquistas femininas que, além de ser uma atividade emancipadora, garante a construção individual de um espaço no qual se sentem valorizadas como pessoas.

Se guardamos um espaço dedicado à análise da relação entre saúde mental e trabalho, devemos cultivar uma discussão sobre a saúde da mulher no trabalho e estudar suas particularidades, enfrentando preconceitos e revisando papéis há muito estabelecidos porém esquecidos. Afinal, todos nós temos novos papéis em uma sociedade que muda cada vez mais rápido a cada dia.

Referências

FRANÇA, Ana L. de; SCHIMANSKI, Édina. Emancipação, Ponta Grossa, 9(1): 65-78, 2009. Disponível em http://www.uepg.br/emancipacao

FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS. Mulheres, trabalho e família. Disponível em http://www.fcc.org.br Acesso em 24 de Março de 2015.

Organização Internacional do Trabalho – OIT. Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um olhar sobre as Unidades da Federação. Disponível em http://www.oitbrasil.org.br/node/880 Acesso em 24 de Março de 2015.

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